Preferiu o Abismo ao Espelho

Preferiu o Abismo ao Espelho

Não sei o que leva alguém a defender uma fábula tão desgastada, tão desconstruída, que a obstinação começa a se disfarçar de virtude.
Há quase um lirismo involuntário em assistir alguém combater a própria verdade com disciplina militar, como se cada desmentido fosse um sentinela postado na fronteira do absurdo — guardando não fatos, mas a negação deles.

Ela segue atuando com a convicção de quem supõe que o mundo inteiro está distraído.
Move-se com aquela segurança performativa de quem “vence por argumentos”, embora os organize com a precisão de um relojoeiro embriagado: nada encaixa, tudo tenta funcionar ao mesmo tempo, e quando o mecanismo falha, basta girar mais forte o ponteiro — como se o tempo, a lógica e a evidência devessem ceder ao desejo de quem dissimula tão bem.
Esse mecanismo é automático, quase normativo: internalizado, involuntário, resistente a qualquer contraditório.
Pode falhar em todas as áreas da própria vida, menos no que domina com maestria técnica: a fuga.
Escapa do argumento, do fato, da prova, da própria responsabilidade subjetiva.
E, admito, há um charme sombrio nisso — uma coragem peculiar: a coragem de se perder para não enfrentar o retorno.

O mais intrigante é o apego.
Mesmo quando o chão já não sustenta, ela permanece fiel à sua dramaturgia interna.
Talvez porque admitir o contrário exigiria reconstrução — e reconstruções não se compram prontas, exigem reforma de identidade.
Há quem prefira ruínas a revisões estruturais.
Chamam isso de personalidade; eu chamaria de fuga sistemática, uma espécie de regime interno de exceção emocional.
E, realisticamente, não há como lidar juridicamente com quem opera nesse modo: você pode interpor, registrar, documentar, demonstrar — e ainda assim ela negará.
Gente dissimulada é cínica por default; e, no meu caminhar, percebi que as personalidades mais difíceis não são as mais profundas, mas as mais fiéis ao próprio cinismo.
Cinismo não reconhece deveres, não admite responsabilidade emocional.

Ao final, percebe-se que não há design normativo capaz de resolver isso.
Lidar com tais pessoas é entrar numa disputa infinita, porque elas não usam espelho frontal — usam prismas, sempre inclinados para o ângulo mais confortável.
Quem decide residir dentro da própria dissimulação ergue paredes espessas demais para ouvir qualquer batida.
Só resta observar a arquitetura ruir pelo próprio peso.

Sempre haverá quem prefira despencar inteiro a admitir uma única rachadura.
E, quando esse ponto chega, a verdade não precisa argumentar: basta permanecer.