Não é força, é desespero bem vestido.
É o músculo da alma rasgando por dentro,
sem anestesia.
É acordar e vestir o ferro do dever
como quem veste a própria pele depois de um incêndio.
Vocês chamam de coragem.
Eu chamo de sobrevivência.
Porque desistir nunca foi opção
não por heroísmo,
mas porque ninguém apareceu pra me segurar
quando eu caí da primeira vez.
Eu aprendi cedo
que dó é um luxo de quem tem colo.
Que o erro é só um nome bonito pra tentativa.
E que o fracasso, no fundo, é parente da fome:
volta todo dia, e a gente aprende a engolir calado.
Já deu errado, sim.
Deu errado quando nasci sem manual,
quando entendi que o mundo não tem espaço pra quem sente,
quando percebi que o amor não paga as contas
e que a esperança, se não trabalha, apodrece.
Mas mesmo assim
mesmo sangrando em silêncio,
mesmo com as mãos queimadas de tanto segurar o impossível
eu sigo.
Porque o medo é inútil,
e o conforto é um caixão com almofada.
Não quero segurança.
Quero cicatriz.
Quero olhar pro espelho e ver a prova
de que eu fui além do que a dor achava que eu aguentava.
E se o preço de existir é ferir,
que então eu sangrasse inteira,
mas de pé.
