O peso invisível das presenças quebradas

O Peso Invisível das Presenças Quebradas

O final se aproxima como um animal cansado que se deita no centro da estrada, sem mais forças para fingir grandeza. A disputa entre os dois poderes, que outrora parecia infinita, agora se mostra frágil, corroída pelo próprio excesso de movimento. Nada foi arrancado deles por uma força externa. Eles se desfizeram por dentro, como madeira que apodrece onde ninguém vê.

Durante toda a batalha silenciosa, cada um falou demais em sua própria mente. Prometeu vitórias secretas. Construiu certezas onde só havia areia. Garantiu-se como quem se apoia em um galho podre sem perceber a leveza enganosa que antecede a queda. Em cada gesto existia orgulho. Em cada estratégia havia a convicção cega de que o outro cairia primeiro. E, enquanto isso, o poder — essa substância ácida que parece prometer brilho mas só entrega desgaste — escorria pelas bordas e corroía ambos.

O felino, tão atento às sombras do inimigo, não percebeu que seus próprios músculos tremiam. A serpente, acostumada a vencer pela astúcia, não notou que sua pele começava a rachar. Cada um se inclinava para um lado, procurando vantagem. Ora para a direita, ora para a esquerda. Não por escolha, mas por vício. E quem vive inclinado, cedo ou tarde revela o ponto exato onde o caráter se dobra.

As objeções corruptivas, essas pequenas concessões internas que parecem inofensivas, cresceram como ervas que tomam um jardim abandonado. A cada inclinação, os dois se distanciavam um pouco mais da solidez que poderiam ter tido, se é que seria possível. E no fim, quando o silêncio chegou, veio a revelação simples. Não foram derrotados pelo outro. Foram derrotados por aquilo que alimentaram dentro de si.

A moral da história é clara como água parada que reflete tudo sem piedade. Nenhum deles ficou no poder. Nenhum deles suportou o peso da própria ganância. Nenhum deles percebeu que falar demais para si mesmo é uma forma de cegueira e garantir-se demais é a porta que se abre para o abismo.

A lição permanece no ar.
Quem se deixa corroer pelo poder perde a própria estrutura.
Quem se inclina sempre para um lado revela não apenas a fragilidade, mas a corrupção de suas raízes.
E quem acredita que pode manipular o destino esquece que o destino escuta o corpo, não as palavras.

No fim, apenas a verdade silenciosa permaneceu de pé.
E não, ela não pertenceu a nenhum dos dois.

Nota:
Ensaio inspirado no texto “Sombras da Dualidade”

, publicado em 05 de setembro de 2011