Aniversário do blog: 22 anos

Hoje completa 22 anos deste blog

Percebi um tipo de verdade desconfortável. Não importa o cuidado com cada frase haverá sempre textos que não serão bem interpretados. Alguns serão apenas mal lidos. Outros serão recusados em silêncio. Haverá ainda aqueles em que algum leitor se sentirá ferido sem que o golpe tenha sido intencional. Hoje completando 22 anos de escrita, e desse blog, essa constatação já não vem como surpresa mas como espécie de clima de fundo. Quando se escreve sem a obrigação da neutralidade quando não se veste a roupa limpa da imparcialidade jornalística o risco cresce. O texto deixa de ser relato e se torna corpo. E todo corpo exposto pode ser confundido atacado rejeitado.

Com o tempo foi surgindo uma compreensão estranha e serena; todas as artes comunicam mas nem todas cortam pelo mesmo lugar. Uma pintura oferece uma superfície. O olhar toca e recua. A não ser quando há algo explicitamente ofensivo o espectador se afasta e pronto; não se sente alvejado de forma tão direta. A música também. Mesmo que a letra descarregue ressentimentos ou nomeie alguém de forma brutal quem ouve guarda uma distância interna. Sabe quase sem pensar que a canção não está apontando exatamente para si. Há um acordo tácito de que se trata de uma cena geral uma dor que veio de outro contexto. Já a palavra escrita entra por outra porta. Não tem melodia para suavizar não tem cor para distrair. É linha na página atravessando o espaço íntimo da mente do leitor. Ali dentro qualquer frase pode ser tomada como acusação como julgamento como espelho indesejado.

Esse aprendizado não veio embalado em teoria; foi surgindo nas reações silenciosas nas respostas secas nos afastamentos sem explicação. Fica claro então que escrever é aceitar que o sentido escapa. Que cada texto é também aquilo que o leitor faz dele. Alguns encontrarão consolo onde só havia desabafo. Outros verão ataque onde só existia exposição de uma ferida antiga. E não há controle possível sobre isso. Se houvesse talvez a escrita perdesse o que a torna viva. Para domesticar completamente o efeito dos textos seria preciso escrever de um lugar neutro demais. Polido demais. Seguro demais. E então já não seriam mais aqueles textos. Seria outra coisa. Algo correto e vazio.

Nesses 22 anos de relação contínua com as palavras uma certeza cresceu em silêncio; de todas as formas de expressão foi a escrita que se tornou terapia involuntária e persistente. Não aquela terapia organizada em sessões e horários mas a outra. A que acontece tarde da noite quando a cabeça pesa e ainda assim o corpo se inclina sobre o teclado ou o caderno como quem procura ar. A escrita foi o lugar onde o que não cabia em conversa pôde existir. Onde a confusão ganhou contorno. Onde a raiva pôde ser atravessada sem explodir em alguém. Ao olhar para trás o que se vê não é uma sequência de textos bem aceitos ou bem entendidos. Vê-se uma sequência de sobrevivências.

De todos os mal-entendidos de todas as leituras tortas de todas as silêncios constrangedores sobra ainda um estranho sentimento de gratidão. Porque foi por meio desses anos insistindo em frases imperfeitas que um certo modo de existir foi sendo bordado. Palavra por palavra. Crônica após crônica. Texto querido e texto rejeitado lado a lado. Hoje faz sentido dizer que não haveria aquele que escreve sem a escrita; não como figura inteira. Talvez existisse algum resto de pessoa automatizada cumprindo tarefas. Mas essa camada mais funda esse núcleo que pensa e sente em espiral só se reconhece quando encosta na página. O resto do mundo pode entender ou não. Pode gostar ou virar o rosto. A escrita permanece. Como a forma mais honesta de dizer aquilo que quase nunca cabe em voz alta. Obrigado a todos que permaneceram!