Na beira da tarde, o céu desfia brasas,
e um vento antigo rosna pelas casas
como se buscasse, entre muros gastos,
os nomes grandes que viraram pastos.
Nas ruas lateja um rumor sem dono:
cada herói que nasce perde o trono,
não por tiranos, somos nós, vizinhos,
lapidando o brilho em pó de espinhos.
Erguemos estátuas com mãos febris,
mas logo as fendas tão sutis
crescem na pedra, em sol discreto:
mil dedos apontam o seu defeito.
O povo celebra quem é de fora e mal conhece,
e quando aprende, logo esquece.
Vira cinismo, vira sentença:
ninguém resiste à nossa crença
de que é mais seguro não admirar.
Melhor quebrar antes que alguém amar.
Assim, no país de vastas estradas,
as vozes fortes são apagadas;
e o brilho que poderia guiar o chão
vira só lampejo de contradição.
No fim, resta o eco brando e ferido
de um gesto nobre caído em ruído;
e o país que devora seu próprio aço
segue sem guia, perdido no espaço.
Pois todo herói que nasce aqui,
se ousa erguer-se, se ousa existir,
aprende, em silêncio, a dura lição:
não é o inimigo — é a multidão.