Entre as dobras silenciosas da alma
existe um limite quase invisível.
Não é um muro: é um desvio.
De um lado, o ego, inflado pela necessidade de ser visto.
Do outro, a autovalorização, firme o bastante para não pedir palco.
O ego fala alto porque teme o vazio.
Precisa de espelhos, comparações, testemunhas.
Vive da soma dos olhares alheios
e confunde aplauso com valor.
Busca brilho rápido, vitória ruidosa,
mas quanto mais se exibe,
mais se distancia de si.
A autovalorização não disputa espaço.
Ela habita.
Não se anuncia: sustenta-se.
Nasce do reconhecimento silencioso
de quem sabe o próprio peso
sem precisar prová-lo.
Não exige superioridade,
porque não se mede por escassez.
O ego vive de hierarquias.
Precisa ser mais, acima, antes.
Transforma a vida em competição contínua
e chama isso de ambição.
Mas toda comparação é uma prisão disfarçada,
pois sempre haverá alguém à frente
e alguém atrás
e nenhuma dessas posições traz repouso.
A autovalorização caminha fora da corrida.
Ela entende a própria singularidade
não como mérito,
mas como fato.
Não tenta vencer o outro,
apenas não se abandona.
Constrói-se de dentro para fora,
com paciência, critério e verdade.
Enquanto o ego se alimenta de reconhecimento,
a autovalorização se nutre de coerência.
Enquanto um depende do ruído,
a outra cresce no silêncio.
Um precisa parecer forte.
A outra apenas permanece inteira.
A diferença entre ambos não é moral,
é estrutural.
O ego vive da aparência.
A autovalorização vive da essência.
O ego cresce rápido e cai com facilidade.
A autovalorização cresce devagar
e sustenta o peso do tempo.
Escolher a autovalorização
não é apagar o ego à força,
mas colocá-lo no lugar certo.
É trocar a necessidade de ofuscar
pela decisão de iluminar-se.
É compreender que grandeza não é volume,
é profundidade.
Liberto-me do ego quando deixo de me comparar.
Fortaleço-me quando deixo de mendigar validação.
É aí que a humildade deixa de ser fraqueza
e se torna solidez.
É aí que o amor-próprio deixa de ser discurso
e vira fundamento.
Que cada passo revele essa distinção.
Que cada queda ensine.
Que a jornada não busque aplauso,
mas alinhamento.
Porque onde há autovalorização verdadeira,
não há excesso,
não há disputa,
não há ruído
há presença.
E presença, quando é real,
não precisa ser anunciada.