Descobri que tenho fibromialgia

Descobri que tenho fibromialgia

No dia em que o diagnóstico fechou, a cidade não mudou de cor, mas eu mudei de densidade. Eu estava num corredor de hospital, daqueles em que o ar é sempre um pouco mais frio do que deveria e o som das rodas de macas vira um metronomo involuntário e eu reconheci o meu próprio corpo como se fosse um paciente desconhecido. Quatro anos de investigação deixam marcas que não aparecem o tempo nos exames: deixam a mania de antecipar a pergunta do médico, a habilidade de sorrir enquanto se descreve dor, a culpa escondida de “talvez eu esteja exagerando” e aquela esperança paradoxal de que finalmente encontrem algo “visível”, porque o invisível cansa. Eu tinha atravessado esse período como quem atravessa um nevoeiro com lanterna fraca: um dia suspeita neurológica, no outro suspeita reumatológica, depois hipóteses que se desfaziam, avaliações que pediam mais sangue, mais imagem, mais tempo. Havia sempre um próximo teste que prometia organizar o caos. E, no entanto, o caos continuava lá, só mais polido.

A sala do consultório, naquele dia, tinha o mesmo silêncio de sempre: teclado, cadeira, a caneta que cai e é recolhida sem pressa. O neurologista e o reumatologista não tinham o tom dramático que a minha cabeça imaginava; tinham um tom limpo, quase administrativo, como quem dá nome a uma constelação para que ela pare de ser um borrão. A conversa girou em torno do que, ao longo dos anos, tinha se repetido com uma consistência cruel: dor difusa que não respeitava mapas anatômicos, fadiga que não combinava com a idade, sono que não restaurava, crises de dermatites, rosácea quando em crise piora, períodos de “névoa” mental, hipersensibilidade a estímulos banais, crises que vinham sem um gatilho único. Eles revisaram o que já havia sido excluído: inflamações sistêmicas, alterações endócrinas relevantes, neuropatias evidentes, doenças desmielinizantes, miopatias, aquilo que a medicina precisa afastar para não errar por omissão. E então veio a frase que, por segundos, me tirou o chão e ao mesmo tempo me devolveu uma superfície: fibromialgia. Não como derrota, não como rótulo preguiçoso, mas como fechamento de um circuito diagnóstico que depende menos de um “marcador” e mais de um padrão clínico bem desenhado, de uma história que se repete, de um corpo que grita de um jeito específico.

Eu senti vergonha antes de sentir alívio, e isso me surpreendeu. Vergonha por ser um quadro que tantas pessoas desvalorizam, vergonha por eu mesmo ter ouvido, em ambientes acadêmicos, a ironia fácil sobre “dor sem prova”. Só que meu corpo não estava interessado em debates; ele estava exausto. A fragilidade apareceu num lugar simples: na mão que segurava a alça da mochila com força demais, como se eu estivesse impedindo que algo escapasse. Eu percebi a minha própria tentativa de manter a postura: uma rigidez no pescoço, a mandíbula travada, a vontade de responder com competência em vez de responder com verdade. Ali eu entendi uma coisa clínica e íntima: o sofrimento prolongado treina a pessoa a virar seu próprio fiscal, e essa autovigilância vira outra fonte de tensão. O diagnóstico, por mais correto que fosse, também era um luto. Ele matava a fantasia de que “quando descobrirem, vai sumir”. Ele dizia: isso não é um engano passageiro, isso é uma forma de funcionamento do seu sistema de dor, uma espécie de amplificador central que aprendeu a aumentar o volume. E a ideia de “sensibilização” deixou de ser conceito e virou biografia.

A força, naquele mesmo instante, não veio como coragem cinematográfica. Veio como um gesto interno pequeno, quase imperceptível: eu parei de discutir com o nome. Nomear organiza. Organizar reduz o terror do indefinido. Eu vi, com clareza desconfortável, como a minha vida tinha sido moldada pela evitação: eu evitava compromissos por medo da crise, evitava planos por medo do corpo falhar, evitava alegria por medo do preço. A evitação dá alívio imediato e cobra futuro; eu estava há anos pagando essa taxa sem perceber. E quando o médico falou de manejo, de ritmo, de sono, de movimento gradual, de estratégias de regulação, de comorbidades que precisam ser vistas com honestidade — ansiedade, humor, estresse crônico como combustível de sintomas — eu ouvi como quem ouve uma prescrição que é ao mesmo tempo física e psicológica: não existe resgate súbito, existe reconstrução. Eu senti medo, mas um medo diferente: não o medo do desconhecido, e sim o medo de ter que ser consistente, de ter que virar alguém que não abandona a si mesmo quando a dor aumenta.

Quando eu saí do consultório, o corredor parecia o mesmo, mas as pessoas pareciam mais humanas. Vi uma mulher com o antebraço marcado por exames repetidos, vi um homem andando devagar como se os pés tivessem memória de impacto, vi uma estudante com olheiras que escondiam mais do que sono. E percebi que, sem querer, eu tinha passado quatro anos tentando convencer o mundo da minha dor, quando o que eu precisava era aprender a conversar com ela sem ser dominado por ela. Não romantizar, não teatralizar, não negar. Ajustar. Dar ao corpo sinais de segurança, porque corpo em alarme amplifica tudo. Dar à mente tarefas menores, porque mente sobrecarregada transforma qualquer sintoma em catástrofe. E ali, no banco frio da sala de espera, eu compreendi o que um diagnóstico fechado realmente faz: ele não te reduz a uma palavra, ele te devolve a possibilidade de método. A fragilidade, naquele dia, foi aceitar que eu não controlava tudo. A força foi aceitar que ainda assim eu podia conduzir muita coisa — não a ausência de dor como milagre, mas a presença de direção como disciplina. E isso, para mim, foi o começo de uma vida mais difícil e mais verdadeira, porque finalmente eu parei de esperar um corpo perfeito para viver e comecei a aprender, com precisão e respeito, como viver dentro do corpo que eu tenho.