Tem gente que faz de sua própria
fé um tipo que se comporta como se fosse um crachá: entra em qualquer lugar,
ocupa qualquer espaço, interrompe qualquer conversa; e ainda se ofende quando
alguém pergunta se, por acaso, existe a possibilidade de bater antes de abrir a
porta. A cena é velha: alguém escolhe um canto do mundo para dançar, para
cantar, para respirar longe das mãos do cotidiano, e imediatamente aparece um
fiscal do invisível com a urgência de quem confunde transcendência com
atendimento ao cliente. Como se o sagrado fosse um panfleto que estraga se não
for distribuído na fila.
A parte curiosa é a lógica. Dizem
que é “amor”. Amor com microfone, amor com abordagem, amor com insistência,
amor que não suporta a hipótese de ser recusado. Um amor que precisa vencer e,
se não vence, chama de “perseguição” o simples fato de ter encontrado um
limite. É um truque retórico elegante: transformar o “não, obrigado” em
violência. O problema é que o “não” não agride; ele apenas devolve ao outro a
responsabilidade pelo próprio corpo, pelo próprio tempo e, sobretudo, pela
própria alma. E isso, para alguns, parece intolerável: uma alma que não está
sob tutela vira um terreno sem placa, e terreno sem placa sempre convida o
pioneirismo alheio.
A falta de respeito aqui não é
teológica; é arquitetônica. Existe uma diferença banal — quase infantil — entre
oferecer e invadir. Entre testemunhar e sequestrar a cena. Entre dizer “eu
vivo assim” e decretar “você deve viver assim, aqui, agora, do meu
jeito, na minha hora”. O curioso é que a espiritualidade, quando é grande,
não precisa de cotovelo. Ela pode até se anunciar, mas não precisa se impor.
Porque quem realmente confia no que carrega não tem medo do silêncio do outro.
Se deslocar até o show de uma artista, alegando que deixou de ir seu para
festival religioso trazer ajuda espiritual é um tanto marketing barato. Quem
acredita de verdade não trata a dúvida alheia como ofensa pessoal. E quem
respeita o próprio sagrado aprende, por consequência, a respeitar o sagrado do
outro... inclusive quando o sagrado do outro é, simplesmente, estar sozinho.
Sim: sozinho. Esse estado que
tantos confundem com “vazio”. Como se interioridade fosse uma sala sem
móveis, pronta para o primeiro pregador que aparecer com um discurso e uma
chave. A solidão espiritual, porém, não é abandono; é escolha. É o direito de
não ter plateia dentro da cabeça. É o direito de não ser convocado a uma
salvação em regime de plantão, como se o infinito tivesse ponto eletrônico. Há
pessoas que encontram sentido no canto; outras, na pergunta; outras, no ritual;
outras, na ausência de ritual e há quem encontre sentido apenas no intervalo. No
minuto em que o mundo, por um milagre raríssimo, não tenta “corrigir” ninguém.
O mais engraçado é que muitos dos
que reivindicam liberdade para “levar sua mensagem” tremem diante da ideia
contrária: a de que, amanhã, alguém apareça no seu espaço mais íntimo para
“compartilhar outra visão”, com a mesma convicção, a mesma doçura invasiva, o
mesmo sorriso de missão. Nesse ponto, o amor costuma descobrir a palavra
“limite” com uma rapidez admirável. Talvez porque a tolerância seja
frequentemente defendida como um direito de mão única: eu posso atravessar sua
fronteira pelo seu bem; você, por favor, permaneça no lugar que eu considero
apropriado para você.
Mas há um gesto, raro e
civilizado, que corta esse nó: reconhecer que o mundo é plural não como
concessão e sim como fato parece ser um dom. A resposta quando alguém invade
com certeza, não é necessariamente o berro; às vezes é a elegância que expõe o
absurdo. Uma espécie de espelho calmo: “Se vale aqui, vale lá. Se o seu sagrado
cabe na minha festa, o meu sagrado também cabe no seu culto.” Não para
provocar, mas para educar a simetria, esse conceito simples que deveria ser
ensinado junto com o alfabeto: aquilo que você considera normal fazer com o
outro, você precisa aceitar que o outro faça com você. O resto é apenas poder
fantasiado de virtude.
No fim, respeito religioso não é
gostar da crença do outro; é reconhecer que a crença do outro (ou a ausência
dela se fosse o caso ou a forma silenciosa dela) não nos pertence. Respeito é
aceitar que o caminho espiritual pode ser uma multidão ou um deserto, uma
canção ou uma pausa, uma celebração ou um recolhimento e que há uma dignidade
profunda em permitir que alguém se encontre sem ser empurrado, sem ser
“resgatado”, sem ser traduzido à força para um idioma que não pediu.
A fé que precisa invadir para
existir está confessando, sem querer, o próprio medo: o medo de que, deixado em
paz, o outro descubra algo que não cabe no seu folheto e algumas descobertas,
as mais verdadeiras, só acontecem quando ninguém está gritando “agora!” no seu
ouvido. Alguns fatos sobrevivem a qualquer debate: espiritualidade não é
propriedade pública, e consciência não é praça de alimentação. A alma do outro
não é palco, é casa. E meu caro, a casa pode até parecer simples, ainda assim é um
lugar onde se bate antes de entrar.