No fundo da mesa, a xícara espera
um astro menor, ainda quente,
girando lenta órbita de despedida.
A luz da manhã ri nas bordas
como se ignorasse o que termina.
Eu levanto o objeto, leve demais,
e o peso que falta cai em mim.
Há um resto de aroma, quase memória,
um fio de calor que insiste
como quem se nega a aceitar a própria morte.
Bebo o último gole:
ele desce como quem volta no tempo,
como se houvesse mundos inteiros
guardados nesse mililitro final.
No silêncio que segue,
algo da porcelana me observa
talvez a pergunta que nunca fiz,
talvez o nome de alguém
que o vapor tentou escrever no ar.
Então deixo a xícara sobre a mesa.
Ela não treme. Eu sim.
E nesse choque de imóveis e instáveis
entendo que o dia começa exatamente aqui:
no instante em que o fim acende o início
com um último e breve calor.