A Calmaria Ensaiada

A Calmaria Ensaiada

Eu cheguei quando a festa de aniversário já tinha entrado no seu ritmo, aquele em que ninguém mais procura o anfitrião e todo mundo já encontrou uma roda que serve.
Este registro não coincide com a data de qualquer postagem, justamente para evitar especulação fácil.
Eu conheço bem esse tipo de festa e ele sempre funciona com a mesma coreografia: gente que fala baixo para parecer segura, risos que não estouram, atenção medida, excesso de gentileza como código.
O corpo aprende a circular sem esbarrar, a aceitar um elogio sem prolongar, a encerrar conversa sem parecer fuga.
O curioso é que, por ser um cenário repetido, ele também favorece certos perfis.
Quem entende a cadência social se adianta sem parecer que está se adiantando.
Quem domina a festa não precisa do centro da festa.

O casal estava ali como um ponto estável.
Ele era querido e isso não era rumor, era efeito direto.
Ele se aproximava na distância exata.
Olhava nos olhos tempo suficiente para o outro se sentir reconhecido.
Variava o tom como quem marca afeto e proximidade.
Sorria com o rosto todo quando queria acolher.
Quando alguém contava algo, ele devolvia uma frase que confirmava ter ouvido.
Esse tipo de resposta dá ao outro a sensação de ser importante.
A conversa fica mais generosa, mais íntima, mais rápida.
Em grupo, ele mantinha um jeito cooperativo.
Não ocupava o espaço com agressividade.
Era polido de um modo constante, como se a própria presença dele fosse um serviço prestado à festa.
Há pessoas que precisam desse contato rico, cheio de sinais, porque dali tiram informação e controle ao mesmo tempo.

Com a esposa, a gentileza parecia ainda mais exemplar.
Ele tocava de leve para conduzir e não para mandar.
Incluía ela na roda e não apenas a posicionava.
Quando ela falava, ele inclinava o rosto, como se a frase dela fosse sempre útil.
Os convidados liam isso como harmonia.
E harmonia pública é um tipo de promessa.
Só que, quando a noite avança e eu fiquei até quatro e pouco da manhã, o que sustenta o personagem começa a gastar energia demais.
O sorriso demora para voltar.
A pausa fica mais longa.
A respiração ganha peso.
A pele muda de brilho.
O corpo dá sinais de que está segurando alguma coisa por dentro.

A ruptura não veio com grito.
Veio com precisão.
Bastou ela discordar de um detalhe, um ajuste pequeno em algo que ele contou.
Na hora, a face dele preservou a calma como quem protege um patrimônio.
O que mudou foi o olhar, que ficou mais duro, e o jeito de usar as palavras.
Ele começou a diminuir a esposa em frases inteiras, sem tropeçar.
Não era raiva espalhada.
Era um ataque organizado.
Chamou a autenticidade dela de encenação.
Chamou o jeito dela de mentira.
Disse que o casamento era uma farsa.
O ponto mais pesado foi a inversão.
Tudo que nele era defeito passou a ser descrito como defeito dela.
Ele empurrava para fora o que não tolerava ver em si.
Ao fazer isso em público, ele tentava se limpar diante da plateia.
Se alguém percebesse a manobra, ele poderia dizer que a outra pessoa é que estava provocando, que era sensível demais, que estava distorcendo.
É um modo de fugir da verdade e de si mesmo, uma fuga antiga, treinada, que se disfarça de serenidade.

A esposa não revidou.
Ela ficou menor no próprio corpo, como quem tenta diminuir a área atingida.
Engoliu o choro, falhou, levantou e saiu chorando.
E ele continuou, como se a saída dela fosse prova de culpa.
Em vez de se recolher, ele buscou testemunhas.
Falou com outros em tom baixo e educado, oferecendo sinais de confiança, quase como se pedisse que confirmassem a versão dele sem precisar pedir.
Esse tipo de habilidade social pode ser usada para ligação real, pode ser usada para fabricar uma ligação que serve só ao próprio interesse.
Quando a pessoa exige admiração, se sente no direito de ser tratada de modo especial, reage com desprezo à menor crítica e não reconhece a necessidade do outro, a educação vira instrumento.
Às vezes, por fora há humildade suficiente para parecer virtude, por dentro existe uma grandiosidade sensível que não suporta ser contrariada.
Quando isso é rígido, repetido e causa dano, deixa de ser apenas estilo.

A festa ficou com um silêncio que não é o do fim da festa.
É o silêncio de quem viu algo íntimo escapar.
Alguns tentaram voltar ao assunto do dia como se isso apagasse a cena.
Outros ficaram presos ao copo, ao celular, ao nada.
Ele permaneceu calmo, o tipo de calma que parece pacífica e por isso engana.
Mas ali já não era paz.
Era controle tentando se recompor.
E o controle, quando é contrariado, costuma se vingar na pessoa que mais sabe onde ele falha.
Ele foi embora daquela madrugada com a mesma imagem de homem admirável para muitos.
Só que eu tinha visto o detalhe que o retrato social não mostra.
A violência dele não dependia de força.
Dependia de linguagem, de plateia e de uma capacidade de parecer correto enquanto fazia o outro sangrar por dentro.