Você não a vê no começo, só percebe quando uma dobradiça começa a chiar em horários estranhos, quando a porta demora meio segundo a mais para fechar, quando o cotidiano ganha uma aspereza que ninguém assume. Enganar alguém é como trocar as placas de um prédio à noite: por fora tudo parece no lugar, mas, quando você entra, os corredores não levam mais a lugar nenhum.
Ela estava ali também, sentada com a bolsa no colo como se segurasse uma criança invisível. Não era uma mulher derrotada, era uma mulher em suspensão, esse estado em que o corpo permanece e a esperança faz plantão. O casamento dela não estava acabando numa explosão, estava acabando num gotejamento.
Ela sabia que estava sendo enganada, sabia do jeito que se sabe quando o próprio nome muda de sabor na boca do outro. Não foi uma mensagem descoberta como em novela, foi um conjunto de sinais pequenos demais para virar prova e grandes demais para virar imaginação.
Quem é enganado por muito tempo aprende um tipo de leitura triste, aprende a medir a temperatura do afeto como quem mede febre sem termômetro.
Eu a vi agir de modo reativo e compreendi que reatividade nem sempre é ataque; às vezes é defesa tardia.
O corpo dela denunciava o desgaste: olhos que buscavam confirmação nos cantos, mãos que não descansavam, uma atenção que voltava sempre ao mesmo ponto.
Eu penso, observando as pessoas naquele saguão, que engano é uma forma de guerra que se disfarça de paz.
O enganador, quando é habilidoso, sabe que não precisa construir uma mentira perfeita, só precisa administrar percepções.
O corpo quase sempre sabe antes do intelecto terminar a frase.
Engano não se prova por um gesto; engano se reconhece pelo desenho repetido do mesmo mecanismo.
O enganado é como alguém que mora numa casa e, sem perceber, troca de vizinho com uma inteligência que se infiltra à noite.
O choque de ouro, para mim, é este: não é a mentira que mais machuca, é o insulto à sua percepção.
Repare no padrão que se repete quando ninguém está performando, porque a verdade pode ser simples, pode até ser dolorosa, mas ela não precisa ser defendida o tempo inteiro.
A mentira, sim. A mentira exige guarda. A verdade, quando existe, respira.
