Eu quase acreditei em você, porque você tem essa persona polida que encaixa na vitrine do mundo como luva sem dedo, e porque eu, com a mania de medir tudo por padrões, confundi educação com essência, etiqueta com caráter, brilho com calor.
Mas a inteligência, essa que não faz barulho, só faz conta, começou a notar o vazamento: o sorriso chegava antes dos olhos, a gentileza tinha a pressa de quem quer prêmio, e a sua concordância era só um jeito elegante de não se comprometer com nada além da própria vantagem.
Você falava “estamos juntos” e o seu corpo dizia “até a próxima oportunidade”, porque o tronco recuava um milímetro, a mão não descansava, o olhar procurava saídas; e eu, que leio micromovimentos como quem lê legenda mal traduzida, senti a frase tropeçar no gesto.
Quando eu discordava, você virava estatística ambulante de baixa afabilidade com alta necessidade de controle, e chamava isso de “sinceridade”; quando eu me calava, você chamava de “maturidade”, como se silêncio fosse aprovação e não só economia emocional para não alimentar sua fome.
Eu quase acreditei porque você sabe usar palavras como quem usa perfume: não para ser limpo, mas para parecer; e, com um humorzinho de boutique, você vendia bondade em parcelas, sem juros, sem entrega, sem devolução.
Eu quase acreditei em você do jeito que um organismo aprende sob reforço: você aparecia em intervalos fixos de carinho, distribuía migalhas bem cronometradas, e me treinava a esperar a próxima dose como se isso fosse amor e não um programa.
Quando eu recuava, você aumentava a recompensa; quando eu avançava, você cobrava custo; e eu, que sei que contingência não é destino, demorei mesmo assim, porque o cérebro também é um bicho antigo que confunde previsibilidade com segurança.
Você chamava minhas perguntas de “drama”, mas era só eu checando coerência, porque quem tem pressa em ser acreditado geralmente tem medo do detalhe, e quem tem medo do detalhe tem algo para esconder, ainda que esconda com riso.
A sua comunicação tinha aquela apreensão seletiva: coragem para discurso, pavor de conversa; energia para convencer plateia, alergia a diálogo que peça reparo, desculpa, responsabilidade, ou qualquer palavra que não combine com o seu ego em traje social.
E quando eu te via falar de valores com a mesma boca que minimizava a dor alheia, eu ria por dentro com um cinismo triste: há gente que usa empatia como ferramenta, não como ponte, e chama isso de “ser adulto”.
Eu quase acreditei em você, até perceber que a sua sombra não era só um lado obscuro, era um porão ativo: pensamentos desagradáveis, impulsos primitivos, pequenas crueldades bem passadas, tudo escondido atrás da máscara que você jurava ser “autenticidade”.
O problema, eu entendi tarde e cedo ao mesmo tempo, não é ter persona, todo mundo tem, é o preço da convivência, é você ter se identificado demais com ela, como se o verniz fosse madeira, como se a vitrine fosse casa, como se o personagem fosse a pessoa inteira.
Você parecia civilizado porque aprendeu a reprimir o instinto onde dá multa e a soltá-lo onde não deixa marca, e então chamava suas ações de “limites”, suas omissões de “paz”, suas manipulações de “jeito”, como se nome mudasse substância.
Eu quase acreditei, sim, e isso diz mais sobre minha esperança do que sobre sua habilidade; mas a sabedoria, essa que vem com uma leve ironia e um certo nojo útil, me devolveu ao óbvio: quem precisa parecer bom com tanta força geralmente não quer ser, só quer vencer.
Então eu deixo aqui meu diagnóstico sem jaleco, rindo baixo para não virar amargo: eu não te odeio, eu só parei de te chamar de luz, porque você nunca foi escuridão inteira; você foi, no máximo, uma felicidade de alta voltagem para você e curto-circuito para o outro.