Não foi o que disseram.
Foi o que repetiram até virar regra.
Repetição não limpa. Solidifica.
Acreditas?
Crê, então.
Crê na língua como se fosse prova,
na saliva como se fosse pensamento,
no boato como se fosse biografia.
Tu não me conheces.
Conheces um vazio.
E, como todo vazio incomoda, tu o preenches com barro quente:
meu nome vira moeda miúda na tua roda de tédio,
um troco emocional para comprar pertencimento.
Vocês não investigam. Vocês se infectam.
Uma frase passa.
O corpo reage primeiro.
Depois a mente inventa um motivo bonito para a reação.
E pronto: nasce uma certeza com cheiro de pânico.
Entrei entre vocês com esperança.
Saí com um diagnóstico.
Não de mim. Do ambiente.
Da mecânica.
Da forma como um grupo se alimenta de um alvo para não encarar o próprio espelho.
Traíras há muitas, claro.
As poucas vozes limpas foram engolidas cedo,
não por falta de coragem,
mas porque coragem não vira meme.
E existe o verme.
O verme que se disfarça de convivência,
de riso compartilhado,
de “somos próximos”,
de toque casual que vira aliança e, no dia seguinte, vira faca.
Ele cresce no espelhamento, na concordância automática,
naquela falsa ternura que pede só uma coisa em troca: submissão.
Eu observo.
Frio não por ausência de sentimento,
mas por disciplina.
Eu aprendi a não entregar meu estado a estímulos baratos.
Eu sei que há gente que vive de acionar gatilhos,
de puxar cordas no teu corpo e chamar o espasmo de verdade.
Não, eu não vou me explicar para ruído.
Ruído não quer resposta; quer reação.
E reação é o alimento favorito do verme.
Sou estrategista da distância, sim.
Distância não é fuga. É seleção.
Eu separo o que é dado do que é invenção,
o que é fato do que é fome,
o que é humano do que é teatro.
Eu esperava olhos.
Olhos que lessem o que o silêncio escreve.
Encontrei plateia.
E plateia não quer ver. Quer assistir.
Diagnostiquei o meio: há bons, há médios, há ruins.
E há os que fingem bondade para colher gratidão,
e os que terceirizam a crueldade para manter as mãos limpas.
Esses são os mais perigosos, porque parecem inofensivos até a lâmina encostar.
E o verme, paciente, ri por último?
Não se iluda.
O verme só ri enquanto há carne disponível.
Quando a carne acaba, ele mastiga a própria língua.
