Ora, ora! Estava ansioso por esse livro! Finalmente terminei Much Ado About Nothing, e já começo, não se sustenta como uma comédia leve sobre enganos amorosos. O que Shakespeare expõe é algo mais delicado e mais cruel: a facilidade com que o ser humano entrega sua percepção à aparência e ao comentário alheio. Nada na peça desmorona por causa de um fato real. Tudo desmorona porque alguém aceita uma narrativa sem atravessá-la com o próprio juízo. O “nada” do título não é vazio; é o espaço mental onde a imaginação ocupa o lugar da verdade. Claudio não perde Hero por traição, mas por incapacidade de sustentar confiança diante da suspeita. Seu amor depende da imagem pública, não da relação viva. Quando essa imagem vacila, o vínculo se dissolve sem resistência. Shakespeare não o transforma em vilão, apenas o mostra como é: alguém que prefere destruir a permanecer exposto. Em contraste, Beatrice e Benedick não resistem ao amor por frieza, mas por lucidez excessiva. Eles conhecem cedo demais o risco de se perderem na entrega e usam o humor como armadura. A inteligência deles não é charme, é proteção. O centro da peça não é o romance, mas a linguagem. O que se diz passa a valer mais do que o que é. Uma encenação mínima basta para reorganizar toda a moral do grupo. Shakespeare sugere, sem alarde, que o mal raramente cria o terreno; ele apenas explora o que já existe: vaidade, medo, desejo de parecer correto. Ler esse texto é perceber que o barulho nunca é gratuito. Ele nasce da dificuldade humana de sustentar vulnerabilidade sem garantias. E nisso, a peça permanece desconfortavelmente atual.
Há também algo silencioso na peça que costuma passar despercebido: ninguém sabe escutar. Todos ouvem, mas poucos escutam. Ouvir é passivo, escutar exige demora. Shakespeare constrói um mundo onde a rapidez em reagir substitui a disposição de compreender. A honra é defendida com violência, mas nunca examinada com cuidado. O resultado é um teatro de gestos morais vazios, onde cada personagem acredita agir corretamente enquanto produz exatamente o oposto do que deseja preservar. Quando a verdade finalmente reaparece, ela não surge como revelação luminosa, mas como cansaço do engano. Não há catarse heroica. Há apenas o reconhecimento tardio de que o dano já foi feito. O perdão, quando vem, não apaga a ferida. Ele apenas permite seguir adiante. Shakespeare parece insistir numa ideia incômoda: o erro humano não nasce da ignorância, mas da recusa em sustentar a dúvida por tempo suficiente.
Por isso o riso da peça nunca é puro alívio. Ele carrega um resto amargo. Rimos porque reconhecemos ali algo nosso. A facilidade com que julgamos, a pressa em concluir, o conforto em aderir ao que já está circulando. Much Ado About Nothing permanece porque não fala de um tempo, mas de um hábito humano recorrente: trocar presença por interpretação, relação por versão, verdade por ruído. E enquanto isso continuar acontecendo, o barulho seguirá parecendo inevitável.