Começa com I e termina com L

Começa com I e termina com L

O homem carregava um alter ego como quem veste um casaco emprestado: largo demais, pesado demais, destoando em cada costura. A falsa autoconfiança que exibia não era futilidade; era ignorância endurecida, construída às pressas sobre fraturas antigas que ele jamais ousou olhar de frente. Dizia-se forte, dizia-se superior, dizia-se experiente e, ainda assim, bastou uma rejeição tranquila, sem humilhação, sem escândalo, apenas um “não quero”, para que todo o edifício da identidade desmoronasse como se fosse feito de gesso. A partir dali, ele passou a perseguir a mulher que o rejeitou, não com violência explícita, mas com o tipo de hostilidade que se esconde dentro de uma piada, atrás de um olhar enviesado, nos corredores onde a presença dele sempre aparecia como sombra indesejada.

Ele fazia pouco dela, sempre em tom jocoso, sempre interpretado pelos incautos como humor, mas carregado daquela intenção corrosiva de reduzir. O objetivo nunca foi rir. Foi diminuir. Foi marcar território onde não havia território algum. Não sempre conseguia; quando ela revidava, ele recuava por instinto, como animal acuado que não suporta ver o próprio reflexo quebrado. Mas bastava uma brecha uma roda de conversa, um comentário lateral, uma presença alheia distraída para que ele tentasse novamente, sempre pelas costas, sempre onde não pudesse ser confrontado diretamente. Espalhava insinuações, distorcia gestos, inclinava a cabeça dos outros contra ela com uma habilidade venenosa que só pessoas profundamente inseguras conseguem mobilizar.

A raiz da conduta dele não estava no fato de ter sido rejeitado. Estava no fato de não saber existir sem que alguém o confirmasse. Ele vinha de fases opostas à atual: tempos de silêncio, de invisibilidade, de dores abafadas. A rejeição funcionou como gatilho, abrindo nele uma fenda que já existia, mas que ele fingia desconhecer. A mulher não recusou sua humanidade; apenas recusou a possibilidade de um vínculo. Mas ele interpretou como sentença. Para alguém que dependia da validação exterior para sentir-se inteiro, perder a chance de ser desejado era perder a própria identidade. E, ao invés de encarar isso como responsabilidade interna, ele criou um inimigo externo ela.

Sua fragilidade era tão vasta que precisou construir uma versão inflada de si para sobreviver ao próprio vazio. Insistia que queria “só brincar”, mas suas brincadeiras tinham a precisão de quem deseja ferir. Dizia que “não se importa”, mas dedicava tempo, energia e estratégias inteiras para arquitetar pequenos ataques sociais. Falava de si como alguém “acima das emoções”, mas tremia nos cantos da alma toda vez que ouvira o nome dela pronunciado por outra pessoa. O falso alter ego que ostentava não era uma proteção. Era um túmulo onde enterrava cada fracasso pessoal sob a forma de arrogância.

Por trás do sarcasmo, havia medo. Por trás das risadas forçadas, havia pânico. Por trás das críticas, havia um desespero infantil, quase primitivo, de não ser visto como insuficiente. Ele não conseguia lidar com a ideia de que alguém o enxergasse sem se impressionar. A rejeição da mulher não foi uma afronta: foi um espelho. E ele simplesmente não possuía estrutura para encarar esse espelho sem se despedaçar.

Por isso precisou construir uma narrativa onde ela era arrogante, ingrata, “metida”. Era mais fácil destruir a imagem dela do que reconstruir a sua. Era mais fácil manipular a visão dos outros do que admitir a própria dor. Ele inclinava conversas, lançava sementes, insinuava histórias, tudo para assegurar que, se ele não podia tê-la, ninguém deveria enxergá-la com admiração. Esse tipo de homem não quer a mulher quer a sensação de ser escolhido por ela. E, quando não é, tenta destruir o valor dela para não lidar com o próprio.

Cada palavra sussurrada pelas costas carregava mais sobre ele do que sobre ela. Revelava inveja, desorientação emocional, profundo medo de abandono, e falta absoluta de autocrítica. Revelava o desespero de quem vive baseado no olhar alheio, mas se corrói internamente porque sabe que não consegue sustentar sozinho o personagem que interpreta. O falso alter ego era sua última barricada contra o colapso interno uma barricada frágil, mal construída, incapaz de protegê-lo de suas próprias conclusões sobre si mesmo.

E se há algo que atravessa a mente humana ao longo de milênios, é que certos perfis não mudam: o homem que finge grandeza para esconder a própria pequenez. O homem que transforma a rejeição em guerra. O homem que tenta destruir o brilho de quem não se encantou com ele. O homem que não sabe amar e, por isso, acredita que ninguém deve amá-la também. Sua história não é exceção. É ancestral. É conhecida. É tão previsível quanto dolorosa.

Ele jamais entendeu que a mulher não foi cruel. Ela apenas foi sincera. Não o feriu apenas o viu. E ver um homem assim é sua maior ofensa, porque sua vida inteira depende de não ser visto de verdade.