Se liga, a vida não começa quando tudo está claro. Ela começa quando algo em nós decide permanecer aberto, mesmo sem garantias. A manhã é só um símbolo. O sol não traz sentido, ele apenas mostra. Mostra que o dia existe. E existir já é muito. Há quem acorde e já queira respostas. Há quem acorde e apenas aceite estar aqui. Essa aceitação simples, quase infantil, é uma forma elevada de sabedoria.
Caminhar pelo dia é aprender a não exigir demais do tempo. O vento não carrega pedidos, carrega movimentos. Sonhos não sobem porque foram bem formulados, mas porque foram entregues. Quando se confia, algo em nós solta. E quando solta, o peso diminui. Não porque tudo vai dar certo, mas porque não precisamos controlar tudo para continuar.
Que o sol ao nascer te faça sorrir, te mostrando que mais um dia se inicia. Que o vento leve os seus sonhos até Deus e que tudo se realize. Mas, quando entardecer e tudo escurecer, não desamine. As estrelas vão brilhar e logo mais a lua aparecerá. Mas, se as nuvens cobrirem o céu, feche os olhos e perceba, que nem todos os dias terminam como a gente quer, mas, podem começar como a gente sonha.
Percebe o que está dito aqui, sem ser explicado? O dia não promete permanência. Ele promete passagem. A luz vem, vai embora, volta diferente. O erro humano é achar que o valor está na duração da claridade. Não está. Está na capacidade de atravessar o escuro sem trair o que se sonhou no claro.
Nem todo entardecer pede coragem. Alguns pedem silêncio. Alguns pedem apenas que a gente não se abandone. Quando a noite chega e nada se resolveu, ainda assim algo permaneceu: você. E isso já basta para que o próximo começo seja possível.
Porque o sonho verdadeiro não depende de como o dia termina. Ele depende de como o coração acorda. E acordar, no fundo, é continuar acreditando que existir ainda vale a pena, mesmo quando o céu não coopera.
É isso. A vida não exige heroísmo. Ela exige presença. E quem permanece, mesmo sem entender tudo, já está mais perto do essencial.