O medo de perder quem a gente ama é tipo quando você tá segurando um balão muito bonito, daqueles que brilham. Aí a mão começa a suar um pouquinho. Você não quer soltar de jeito nenhum. Mas, ao mesmo tempo, você sabe que balão escapa. E só de imaginar já dá um aperto no peito, como se tivesse uma mão invisível fechando devagar lá dentro.
Eu sinto que esse medo não aparece do nada. Ele aparece porque amar é grande demais e a gente é pequeno. Quando eu gosto muito de alguém, eu começo a guardar detalhes como se fossem tesouros. O jeito que a pessoa fala meu nome. O cheiro da roupa. A risada que vem antes da frase. A mania de arrumar o cabelo ou bater o pé no chão.
Aí eu penso: “E se um dia isso não estiver mais perto de mim?” Não é só perder a pessoa. É perder o mundo que ela cria quando está ali…
As vezes o medo chega sem avisar. Tipo quando alguém demora pra responder e, de repente, minha cabeça faz um filme inteiro. Um filme triste, com música e tudo. Eu sei que tô exagerando, mas mesmo assim meu coração acredita primeiro e pergunta depois.
Acho que o coração é meio apressado. Ele não gosta de esperar explicação. Ele quer ter certeza logo que vai ficar tudo bem.
Tem uma parte que eu quase não gosto de admitir, mas vou falar porque eu tenho 10 anos e acho que falar a verdade é melhor do que deixar o medo crescer escondido. Às vezes eu tenho medo de perder alguém e fico grudento. Ou fico bravo. Ou finjo que nem ligo. Mas isso é o medo disfarçado.
É como se o medo colocasse uma fantasia pra não parecer medo. Só que por baixo da fantasia ele continua tremendo.
Eu também acho que a gente tem medo de perder quem ama porque, quando a pessoa vai embora, parece que leva um pedaço da gente junto. Não porque a gente fica menor, mas porque tem partes da gente que só aparecem com certas pessoas.
Tem gente que faz a gente ficar mais corajoso. Tem gente que faz a gente ficar engraçado. Tem gente que faz a gente ficar calmo. Aí, quando essa pessoa não tá mais perto, a gente fica procurando essa versão da gente, como quando algo cai no sofá e some.
Mas tem uma coisa que eu tô aprendendo, bem devagar. O medo de perder é prova de que a gente ama. Eu sou sensível, mas quase ninguém sabe, porque eu nunca mostrei muito.
Só que prova não quer dizer que a gente tem que sofrer o tempo todo. É igual segurar uma coisa importante. A gente segura com cuidado, não apertando demais. Se apertar demais, machuca. Se apertar de menos, cai. O difícil é aprender o meio.
Eu acho que tem três coisas que ajudam, mesmo sem resolver tudo. A primeira é falar as coisas antes que vire tarde. Dizer “eu gosto de você” em dias normais, não só quando dá saudade.
A segunda é fazer lembranças de propósito, como quem planta uma árvore e não só espera a sombra. A terceira é lembrar que amor não é corrente. Amor é ponte. Ponte deixa a pessoa ir e voltar. Corrente só prende e enferruja.
E se um dia você realmente perder alguém que ama… eu não sei falar isso sem doer, porque dói mesmo. Mas eu acho que o amor não some como um desenho apagado. Ele muda de lugar.
Ele vira uma coisa dentro da gente que às vezes dá vontade de chorar e, às vezes, dá vontade de sorrir do nada. Igual quando você acha uma foto antiga no meio de um livro.
A saudade é o jeito que o amor continua andando quando a pessoa não tá mais perto.
Eu ainda tenho medo, claro. Mas agora eu acho que amar é isso. É ter coragem mesmo com medo. É escolher cuidar mesmo sabendo que a gente não controla tudo. E talvez ser humano seja exatamente isso. A gente não controla tudo, mas mesmo assim ama, né?