Querido eu do futuro,
eu queria te contar uma coisa importante antes que você esqueça. Porque eu acho que a gente esquece sem perceber, igual quando cresce e deixa pra trás as coisas pequenas que faziam a gente ficar feliz sem esforço….Você lembra de quando a gente era… a gente mesmo? Você lembra do peso da mochila nas costas, de ficar bravo com coisas pequenas e, ao mesmo tempo, sentir umas coisas enormes que ninguém via?
Eu sinto isso agora. Sinto como se por fora eu fosse só uma criança normal, mas por dentro tivesse um adulto pequenininho sentado numa cadeira, olhando tudo com atenção e anotando. Às vezes isso é bom, porque eu percebo coisas que outras pessoas não percebem. Tipo quando alguém fala “tá tudo bem”, mas o olho não combina com a frase. Ou quando eu rio alto só pra ninguém notar que eu tô com medo.
Mas às vezes é ruim também, porque eu penso demais. E pensar demais é igual deixar um vídeo rodando sem apertar pause.
Eu quero te perguntar uma coisa, e queria que você respondesse aí dentro, nem precisa falar alto. Você ainda sente vergonha de ser sensível? Porque eu sinto. Eu fico com vergonha de me importar com coisas que parecem bobas, tipo um amigo que não respondeu ou quando eu imagino que a mãe tá cansada e eu não sei ajudar.
Mas eu acho que essa vergonha é uma mentirinha que cresce se a gente alimenta. Então, por favor, não alimenta. Não transforma o nosso coração num lugar fechado só pra parecer forte. Força que não sente nada é só parede. E parede não abraça ninguém.
Outra coisa. Você ainda faz aquelas promessas silenciosas pra você mesmo? Tipo “amanhã eu vou ser melhor”, mas não melhor de ganhar ou tirar nota alta. Melhor de verdade, que é quando a gente não machuca a gente mesmo por dentro.
Eu tenho medo de você virar alguém que faz cara de normal por fora, mas por dentro já desistiu um pouco sem contar pra ninguém. Se isso acontecer, volta um pouquinho. Não precisa voltar no tempo. Só volta pro seu corpo, respira e lembra que você sempre teve um jeito simples de se salvar. Você fala a verdade. Nem que seja baixinho.
Eu também queria pedir pra você não esquecer do que a gente gosta. Eu já percebi que o mundo tenta trocar o que a gente gosta por coisas que dão aplauso. Aplauso faz barulho e passa rápido. O que a gente gosta de verdade é quieto e fica.
Então, se você parou de desenhar, desenha só um pouquinho. Se parou de ler, lê uma página. Se parou de olhar pro céu porque “não dá tempo”, olha de novo. O céu não cobra nada. Ele só fica lá, igual um amigo que não pergunta por quê.
Agora se por acaso quem estiver lendo isso for o eu do passado, eu quero dizer uma coisa bem clara. Você não tá louco por sentir tanta coisa. Você só tá acordado. E estar acordado cansa, eu sei. Mas também faz você ver beleza onde ninguém tá olhando. Tipo um passarinho tomando banho numa poça ou o silêncio antes de alguém pedir desculpa.
Não tenta virar pedra. Aprende a ser árvore. Árvore sente o vento e mesmo assim fica em pé.
Eu não sei o que vai acontecer com a gente, e isso dá um friozinho na barriga, igual quando a gente sobe num lugar alto e dá vontade de rir e chorar ao mesmo tempo. Mas tem uma coisa que eu acho que é nossa de verdade. A gente percebe.
A gente percebe quando tá se traindo. A gente percebe quando tá indo longe demais só pra alguém gostar. Usa isso como um alarme, não como culpa. Culpa pesa. Alarme avisa. E aviso é pra proteger.
Tá, última coisa, bem simples. Se no futuro você sentir saudade de alguma coisa e não souber do quê, talvez seja de mim. Não precisa ficar triste. É só lembrar que eu tô aqui……… tentando ser corajoso do meu jeito, escrevendo essa carta como quem amarra uma linha no dedo pra não esquecer. E eu não quero que você esqueça da gente.