Eu fico imaginando uma coisa meio estranha. Se meus pensamentos aparecessem no céu, eu acho que o mundo ia ficar mais quieto. Não um silêncio bom, mas um silêncio de gente com medo de levantar a cabeça e se ver sem querer. Porque a primeira coisa que ia acontecer é a gente descobrir que a cabeça não é um quarto fechado. Ela é mais uma casa cheia de janelas, só que as janelas dão pra dentro e a gente finge que não vê. Aí de repente pronto. O teto do mundo vira uma tela gigante e aparece lá, bem grande, aquele pensamento que eu tive quando ninguém estava olhando. Às vezes nem eu estava olhando, porque tem pensamento que passa correndo, igual um bichinho atravessando a sala no escuro.
No começo eu acho que ia ser bonito. Imagina o céu no fim da tarde, meio laranja, com nuvens, e entre uma nuvem e outra uma frase brilhando. Tipo “eu amo minha mãe do tamanho do barulho do meu coração”. Ou “eu queria pedir desculpa, mas não sei como”. O céu ia virar um lugar de verdade, não só um lugar do tempo. E a gente ia perceber que muita gente que parece dura por fora guarda coisas bem macias por dentro. Se é tão bonito, por que dá tanto medo? Dá medo porque a gente não é só o que escolhe pensar. A gente também é o que pensa sem querer. Se o céu mostrasse tudo, ele ia mostrar duas versões da gente ao mesmo tempo. A que quer ser boa e a que quer fugir. A que abraça e a que empurra. A que sente inveja e a que fica triste por sentir inveja. Eu imagino alguém apontando pro céu e falando “olha lá, ele pensou isso”, como se pensamento fosse assinatura, como se fosse culpa. Mas pensamento nem sempre é decisão. Às vezes é só emoção fazendo barulho.
Eu sinto que ia ter uma confusão grande entre quem a pessoa é e o rascunho dela. Meus pensamentos parecem desenhos no caderno. Tem uns que eu gosto e queria pendurar na parede. Tem outros que eu faço só pra testar a mão, ficam feios e eu nem sou aquilo. Mas no céu ninguém ia saber o que é desenho final e o que é rabisco. Pra mim, privacidade é isso. É poder rabiscar sem plateia. O céu não é só um lugar lá em cima. Ele parece um espelho muito antigo que às vezes devolve o que a gente joga. Tipo quando você pensa muito numa coisa e parece que ela cresce, fica pesada, como se o ar tivesse memória. Se os pensamentos aparecessem no céu, talvez eles ficassem mais reais do que deviam. Palavras no céu iam pesar mais do que palavras na boca. Isso é meio assustador, porque tem gente que já sofre escondido. Se o céu mostrasse, a pessoa não teria nem o cantinho dela pra respirar. Todo mundo precisa de um esconderijo às vezes. Não pra fazer coisa errada, mas pra aguentar.
Pensando mais, eu acho que ia ficar mais difícil mentir, mas também ia ficar mais difícil crescer. Crescer precisa de tempo pra mudar de ideia. Precisa poder pensar uma coisa hoje e outra amanhã. Se o céu guardasse tudo pra sempre, a gente ia virar personagem de si mesmo, preso a ser sempre igual. E ser coerente demais talvez vire uma gaiola. Tem gente que melhora porque um dia pensa “não quero mais ser assim” e ninguém fica lembrando o pensamento antigo em voz alta. Mesmo assim tem um lado que eu gosto, mesmo dando medo. Se o céu mostrasse os pensamentos, talvez a gente entendesse que quase todo mundo está tentando. Só que tentando meio torto às vezes. A raiva ia aparecer com uma legenda escrita “eu tô com medo”. A frieza ia aparecer com “eu tô cansado”. A inveja ia aparecer com “eu me sinto pequeno”. Talvez alguém olhasse pra cima e, em vez de julgar, sentisse vontade de cuidar.
Mas eu acho que depois de um tempo as pessoas iam inventar óculos pra não ver, ou iam andar sempre olhando pro chão. Porque olhar pro céu dos pensamentos é olhar praquilo que a gente esconde até de si mesmo. Aí eu fico com uma ideia que parece uma pedrinha no bolso…..Talvez não seja bom meus pensamentos aparecerem no céu. Talvez o melhor seja eu aprender a olhar pra dentro como se fosse céu. Com nuvens passando. Sem achar que cada nuvem é o clima inteiro. Porque eu não sou cada pensamento que passa por mim.