Chega um ponto em que o pensamento se recolhe
e o silêncio passa a dizer mais do que qualquer resposta.
Entende-se, então, que compreender não é dominar,
é permanecer.
Tentamos nomear o que sentimos,
mas a vida escapa às definições
há um tipo de saber que não se explica,
apenas se reconhece,
como o mar ouvido à distância, sem ser visto.
O tempo perde o papel de juiz
e se transforma em paisagem.
Nada precisa ser vencido.
O deslocamento real acontece dentro,
onde as decisões mais profundas
não alteram o mundo exterior,
mas mudam a forma como ele nos atravessa.
A vida não pede interpretação contínua
ela segue.
E a paz nasce quando cessa o esforço
de governar o que não se deixa governar.
No silêncio, tudo retorna à sua escala verdadeira.
O medo diminui.
A dor encontra contorno.
O ego afrouxa.
A angústia cede lugar à aceitação.
Desistir do controle não é rendição,
é clareza.
O mistério deixa de ser ameaça
e passa a integrar aquilo que somos.
Ao olhar para trás, as dúvidas permanecem,
mas já não ferem.
Viraram marcas leves,
não advertências.
Caminho devagar porque respeito o caminho.
O indizível já não aprisiona, acolhe.
Há experiências que não pedem explicação,
pedem travessia.
E quando finalmente são compreendidas,
não viram discurso.
Viraram silêncio
não vazio,
mas lucidez.
