Adeus 2025, vá e não volte mais

Adeus 2025, vá e não volte mais

No fim do ano a gente olha para o calendário como se ele fosse um botão de reset. É uma fantasia bonita. Só que o tempo não apaga. O tempo revela. Ele põe luz onde a gente chamava de “vida normal”, quando era só repetição e é por isso que o Ano Novo pode ser tão poderoso se a gente não o usar como maquiagem. Que a gente use como espelho. Porque recomeço não é mudar de página. Recomeço é mudar de posição por dentro. É quando a consciência sai do lugar antigo e passa a olhar a própria vida com outra autoridade. A gente não precisa de uma virada para isso. Mas a virada ajuda. Ela dá um símbolo. E símbolo é uma porta. Só atravessa quem decide atravessar. E aqui entra uma sutileza que salva muita gente do desespero: recomeçar nem sempre é recomeçar do zero. Às vezes, é só iniciar. Iniciar uma conversa que você vem adiando. Iniciar um cuidado com o corpo que você vem negociando. Iniciar o estudo que você vem prometendo. Iniciar uma honestidade que você vem traindo em silêncio. Tem recomeços que parecem pequenos, mas eles são o começo do império interno.

O recomeço real acontece quando a gente percebe que existe um cosmos dentro de nós. Um conjunto de forças. Pensamentos. Instintos. Memórias. Desejos. Medos. Há um governo interno em funcionamento mesmo quando a gente acha que está apenas vivendo e muitas vezes quem governa é aquilo que a gente não escolheu: a necessidade de aprovação, o hábito de se diminuir, a pressa, a culpa, o medo da perda. Quando esse governo está desordenado, a gente até faz planos. Só que os planos viram cansaço. Porque uma parte nossa empurra e outra parte sabota. Uma parte sonha e outra parte protege o velho mundo. E aí muita gente chama isso de “falta de disciplina”, quando na verdade é falta de integração: o trono está ocupado por emoções em pânico, enquanto a melhor parte de nós espera permissão pra existir. A inteligência emocional começa aí: não é virar alguém frio, é aprender a não ser sequestrado por estados internos que mandam na nossa vida por algumas horas e depois nos deixam com a conta.

Recomeçar, então, não é adicionar metas. É reorganizar o trono. Emoção não pode virar rei. Razão não pode virar carcereiro. Instinto não pode virar tirano. E a nossa melhor parte não pode ficar pedindo licença. Esse alinhamento é o começo do caminho adulto: o caminho em que a gente deixa de ser fragmento e começa a ser inteiro. Agora repara numa coisa ainda mais exigente: a gente não mora só em acontecimentos. A gente mora em padrões e padrões são letras invisíveis que escrevem o nosso mundo. O tipo de silêncio que a gente pratica. O tipo de conversa que a gente tolera. O tipo de desejo que a gente alimenta. O tipo de mentira que a gente chama de estratégia. O tipo de coragem que a gente adia todo dia. Isso tudo é linguagem interna. E linguagem interna cria realidade.

Quem entende isso para de esperar que o mundo mude primeiro. Começa a mudar a gramática do próprio ser e muda com uma coisa que quase ninguém respeita: foco. A energia se perde quando a gente tenta salvar tudo ao mesmo tempo. Mas quando você escolhe uma coisa essencial — uma única coisa verdadeira — e insiste nela, você economiza vida. Você para de se espalhar para sobreviver e começa a se concentrar para construir. E aí entra uma virada que é simples de dizer e difícil de sustentar: parar de pedir ao futuro que conserte o passado. Começar a exigir de nós mesmos uma transformação de eixo. Isso dói porque desmonta a inocência. A inocência que chama de prudência o que é medo. A inocência que chama de destino o que é covardia. A inocência que chama de maturidade o que é desistência bem-vestida.

Tem um ponto em que ressentimento e culpa começam a parecer “profundidade”, mas são só um jeito de continuar preso. Porque quando a dor vira identidade, ela governa. E quando a culpa vira linguagem, ela vira casa. Há um tipo de moral interna que não nos melhora, só nos encolhe. Recomeçar é recusar esse encolhimento. É trocar a necessidade de punição pela necessidade de criação. É sair do “eu sou assim” e entrar no “eu posso me tornar”. (E sim: isso exige morrer um pouco por dentro. Morrer um modo de se justificar. Um modo de se explicar. Um modo de viver para caber) e aqui eu quero tocar em você de um jeito mais direto, porque eu não sei como foi o seu 2025.

Talvez você tenha perdido alguém. Talvez tenha perdido um plano. Talvez tenha perdido o brilho. Talvez tenha falhado feio. Talvez esteja cansado de tentar e sentir que não sai do lugar. Ou talvez esteja do lado de fora, funcionando, trabalhando, sorrindo, mas por dentro com uma guerra silenciosa. Se for isso, entende: recomeçar não é negar o que doeu. É parar de deixar que a dor decida. Às vezes o que nos salvou em 2025 foi apenas aguentar. E aguentar já é um tipo de coragem. Há dias em que a vida não pede vitória; pede permanência. Pede que você atravesse o dia sem se abandonar. E isso é grande, mesmo que ninguém aplauda.

E tem outra coisa: recomeço também passa por gente. A gente romantiza o “novo eu” como se fosse uma obra solitária. Mas quase sempre o próximo capítulo depende de um laço reparado, de um pedido de desculpas, de uma conversa simples, de um gesto que devolve dignidade. Existe uma ciência discreta da reconexão: escutar de verdade, sinalizar presença, diminuir a ameaça, dar ao outro — e a você — uma sensação de escolha, de controle, de respeito. Demorei muito a perceber isso, mas às vezes a pessoa não precisa do seu argumento; precisa do seu cuidado e tem momentos em que a raiva só precisa de tempo para baixar a temperatura, porque ninguém pensa com clareza quando está em modo de ataque.

Então talvez o seu recomeço não seja “mudar tudo”. Talvez seja iniciar de um jeito mais humano.
— Iniciar um pedido de ajuda.
— Iniciar uma rotina pequena que você consegue sustentar.
— Iniciar um limite que te protege.
— Iniciar uma despedida do que te consome.
— Iniciar uma verdade que você vem evitando.

Se você está com medo, lembra disso: medo não é um obstáculo. Medo é um alarme. Ele avisa, mas ele não governa. A arte é aprender a ouvir o alarme sem obedecer ao pânico. Porque a mente pode fabricar mil histórias para te manter no mesmo lugar; mas uma decisão bem colocada, uma só, recoloca o teu mundo nos trilhos. E quando a gente decide, o corpo acompanha. A energia volta. A vida fica mais simples. Não porque ficou fácil, mas porque talvez tenha ficado mais coerente. E existe ainda uma última camada, talvez a mais silenciosa: recomeçar é também aprender a voltar para dentro. Não como fuga do mundo, mas como recolhimento de poder. Como quem volta para o centro para não ser arrastado por qualquer barulho. Porque a atenção é o que dá forma à realidade: aquilo que você alimenta cresce; aquilo que você ignora perde trono.

Então que o nosso Ano Novo seja um alinhamento, com mais decisão e mais presença. Que a gente volte para os nossos sonhos com seriedade. Quando honramos o que é essencial, o medo começa a perder o comando. Não porque desaparece, mas porque deixa de mandar.

O ano muda quando você muda o centro de comando. Se 2025 me ensinou alguma coisa, que seja isso: você não precisa começar do zero. Você precisa começar de verdade, por inteiro. E assim a gente encerra 2025: não como quem foge do que viveu, mas como quem finalmente decidiu o que vai viver daqui pra frente.

Feliz ano novo, pessoal! Deus abençoe nosso ano.