No silêncio que antecede o toque do ilu,
quando o vento abre caminhos sobre a terra úmida,
ergue-se o relicário onde cada Orixá repousa em cor e brilho,
em contas vivas, em folha sagrada, em axé que não se vê,
mas se pressente no fundo da alma —
como quem ouve a respiração do mundo antes do amanhecer.
No ventre da noite, Exu risca encruzilhadas:
verbo primeiro, dono do passo inaugural.
Sua gargalhada abre portais antigos,
onde o dia aprende que nada chega sem partir,
e toda partida guarda um retorno secreto,
tão certeiro quanto o fogo que reencontra a própria brasa.
Sob o orvalho que doura a relva, Oxóssi vigia.
Caçador do invisível, herda o segredo das matas
e mostra que fartura é disciplina,
que a flecha só acerta quando o espírito se recolhe.
Seu passo é leve — quase sonho —
mas seu domínio é vasto como o horizonte de quem busca.
A água doce murmura o nome de Oxum,
senhora das doçuras, mãe das águas que curam.
Seu ouro não é riqueza, mas saber que escorre lento.
Ela revela que o amor tem bordas firmes,
e que só os que entendem a suavidade
descobrem o poder que repousa no gesto brando.
No encontro entre rio e mar,
Iemanjá se ergue em coroas de espuma.
Rainha que canta memórias de origem,
tece marés que carregam tanto perdas quanto renascimentos.
Tudo o que se entrega a ela regressa limpo,
com um sal que recompõe as fendas do peito.
E quando o céu acende seu tambor de trovão,
Xangô ergue a justiça como oxé flamejante.
Pesa destinos na balança de pedra,
mostrando que a verdade pode ferir,
mas jamais é cruel —
pois a crueldade nasce onde falta ordem.
Na quietude das pedras antigas, Nanã sussurra.
É memória primordial, lama antes do mundo.
Com ela entendemos que morrer é retornar à primeira argila,
e que toda vida é barro paciente
à espera do toque que lhe dará forma.
Ogum, senhor do ferro, abre picadas e futuros.
Em seu punho arde o avanço;
cada golpe é caminho,
cada faísca é promessa —
revelando que o impossível é apenas
o que ainda dorme no metal não forjado.
Quando o corpo dança até reencontrar o próprio fôlego,
Iansã gira o destino em ventos vermelhos.
Leva o que pesa, arranca o que prende,
e ensina que coragem é tempestade:
não pede licença —
transforma.
No segredo profundo onde a noite guarda suas folhas,
Obaluaiê cura sem anunciar.
Ele conhece a dor que não tem nome
e desfaz doenças pelo fio do mistério.
Seu silêncio é remédio;
seu passo, renascimento.
E assim, no xirê que abraça o mundo,
cada Orixá se inscreve no corpo, na memória, no chão.
O relicário vibra —
não como objeto, mas morada;
não como símbolo, mas vida.
Pois quem carrega os Orixás não precisa de altar:
é altar.
É caminho.
É folha.
É tambor.
E cada batida é lembrança antiga:
somos barro, somos vento, somos água, somos fogo —
somos o eterno retorno do axé que jamais adormece.