Não há portas.
Entra-se vivendo.
Cada passo cotidiano
deixa algo para trás:
um gesto contido,
uma resposta engolida,
um limite adiado
em nome da calma.
As dores menores
não sangram.
Elas assentam.
Criam hábito.
Aprendem a morar
no corpo sem pedir espaço.
Há salas inteiras
feitas de quase.
Quase dito.
Quase exigido.
Quase sentido.
Tudo pequeno demais
para parar a vida,
grande demais
para desaparecer.
Nas vitrines invisíveis
repousam frases educadas
que esconderam cansaço,
sorrisos usados
como forma de economia emocional,
silêncios escolhidos
para não gerar conflito.
Nada ali parece grave.
Por isso permanece.
Por isso se acumula.
O visitante frequente
aprende a andar leve
carregando peso.
Confunde resistência
com maturidade.
Chama de força
o que é apenas adaptação contínua.
O museu cresce
sem alarde.
Organizado.
Funcional.
Até que um dia
alguém percebe
que vive cercado
do que nunca foi elaborado.
As dores menores
não pedem cura.
Pedem reconhecimento.
Porque o que não é visto
não some.
Apenas aprende
a sustentar tudo
em silêncio.