Museu das Dores Menores

Não há portas. Entra-se vivendo. Cada passo cotidiano deixa algo para trás: um gesto contido, uma resposta engolida, um limite adiado em nome da calma. As dores menores não sangram. Elas assentam. Criam hábito. Aprendem a morar no corpo sem pedir espaço. Há salas inteiras feitas de quase. Quase dito. Quase exigido. Quase sentido. Tudo pequeno demais para parar a vida, grande demais para desaparecer. Nas vitrines invisíveis repousam frases educadas que esconderam cansaço, sorrisos usados como forma de economia emocional, silêncios escolhidos para não gerar conflito. Nada ali parece grave. Por isso permanece. Por isso se acumula. O visitante frequente aprende a andar leve carregando peso. Confunde resistência com maturidade. Chama de força o que é apenas adaptação contínua. O museu cresce sem alarde. Organizado. Funcional. Até que um dia alguém percebe que vive cercado do que nunca foi elaborado. As dores menores não pedem cura. Pedem reconhecimento. Porque o que não é visto não some. Apenas aprende a sustentar tudo em silêncio.