Um dia eu perdoei meu inimigo e fui forte.No outro eu pedi perdão e fui grande.Um dia mostrei minhas razões e fui eloquente.No outro ouvi meu próximo e fui humano.Um dia lutei pela minha causa e fui bravo.No outro lutei pela causa alheia e fui gente.Um dia batalhei pelo que queria e fui perseverante.No outro dividi o pão e fui rico.Um dia recebi aplausos e fui admirado.No outro fiz o bem em silêncio e os céus me aplaudiram.Um dia usei a inteligência e fui respeitado.No outro usei o coração e fui amado.Um dia resolvi escrever e fui criticadoNo outro recebi de uma senhora um sincero "obrigado".
A vida não nos educa em linha reta. Ela nos treina por contraste. Num dia você vence e aprende pouco. No outro você cede e entende muito. É assim que a consciência cresce. Não por acúmulo. Mas por inversão.
Um dia eu perdoei meu inimigo e fui forte. Forte porque o perdão quando nasce da lucidez não é submissão. É domínio. Quem perdoa sem precisar justificar mostra que não está mais preso à cena. O inimigo perde o lugar. Some do centro. Perdoar é retirar o outro do trono da própria mente. Poucos fazem isso sem discurso. Menos ainda sem aplauso.
No outro dia pedi perdão e fui grande. Grande porque pedir perdão não é se ajoelhar. É abandonar a fantasia de pureza. Só pede perdão quem já percebeu que a própria imagem não vale tanto assim. O ego odeia isso. A alma respira. Existe uma diferença brutal entre defender a própria razão e reconhecer a própria falha. O primeiro gesto cria seguidores. O segundo cria humanidade.
Um dia mostrei minhas razões e fui eloquente. As palavras vieram bem. As ideias se organizaram. Fui ouvido. Fui respeitado. Mas há uma armadilha aí. A razão quando vence rápido costuma humilhar devagar. Ganhar um argumento pode custar uma relação inteira. A eloquência embriaga. Dá sensação de altura. Mas não dá abrigo.
No outro dia ouvi meu próximo e fui humano. Ouvir é uma arte ingrata. Não rende curtidas. Não gera citações. Exige silêncio interno. Enquanto o outro fala você precisa conter o impulso de se defender. É desconfortável. É lento. Mas é aí que algo raro acontece. Você percebe que quase todo ser humano não quer vencer. Quer ser visto. Quando isso acontece o conflito perde força sem precisar de sentença.
Um dia lutei pela minha causa e fui bravo. A causa era justa. O peito inflado. A energia alta. Defender aquilo que se acredita dá identidade. Dá chão. Dá direção. Mas existe uma linha fina entre coragem e idolatria da própria bandeira. Quando a causa vira extensão do ego qualquer discordância parece ataque pessoal. E aí a bravura começa a cheirar a vaidade.
No outro dia lutei pela causa alheia e fui gente. Defender o que não te beneficia diretamente exige um tipo de maturidade que não se aprende em livros. É o momento em que você entende que justiça não é um favor que se faz quando sobra tempo. É uma postura. Às vezes você perde algo. Às vezes ninguém percebe. Mesmo assim algo se organiza por dentro. Um tipo de dignidade silenciosa.
Um dia batalhei pelo que queria e fui perseverante. Persisti. Aguentei. Insisti. Isso molda caráter. Ensina foco. Mas também pode endurecer. Há pessoas que confundem perseverança com teimosia sofisticada. Continuam correndo mesmo quando o caminho já não faz sentido. A força vira prisão. O objetivo vira desculpa.
No outro dia dividi o pão e fui rico. Rico porque ali entendi algo simples e esquecido. Acumular dá segurança. Compartilhar dá significado. O pão dividido não resolve o mundo. Mas resolve aquele instante. E o instante bem vivido tem um peso estranho. Ele sustenta mais do que promessas grandiosas.
Um dia recebi aplausos e fui admirado. É bom. Não vou fingir o contrário. O aplauso confirma. Aquieta dúvidas. Alimenta o esforço. Mas ele cobra juros. Logo você começa a agir esperando a próxima salva de palmas. E quando ela não vem o vazio aparece. O aplauso é um senhor exigente. Nunca se satisfaz por muito tempo.
No outro dia fiz o bem em silêncio e os céus me aplaudiram. Ou melhor. Ninguém aplaudiu. E foi exatamente aí que algo mudou. O gesto ficou limpo. Sem testemunha. Sem narrativa. Sem palco. Quando ninguém vê você descobre se o ato era virtude ou estratégia. Esse tipo de bem não vira história. Vira base.
Um dia usei a inteligência e fui respeitado. O mundo respeita quem articula. Quem antecipa. Quem entende o jogo. A inteligência abre portas. Evita armadilhas. Mas ela também cria distância. Nem todo respeito aproxima. Às vezes afasta com elegância.
No outro dia usei o coração e fui amado. Amor não é prêmio por desempenho. É resposta à presença. Quando você age sem cálculo excessivo algo se comunica além das palavras. Não é fraqueza. É risco. Amar expõe. Mas também conecta. E conexão sustenta onde o respeito falha.
Um dia resolvi escrever e fui criticado. Normal. Quem pensa em voz alta incomoda. A crítica raramente é sobre o texto. Quase sempre é sobre o espelho que ele oferece. Nem todo mundo gosta do reflexo. Aprender a suportar isso sem endurecer é parte do caminho.
No outro dia recebi de uma senhora um sincero obrigado. Não havia plateia. Não havia algoritmo. Só um olhar cansado e honesto. E ali ficou claro. A grandeza não mora nos grandes gestos. Mora na coerência diária entre o que você entende e o que você faz quando ninguém está avaliando.
No fim das contas não se trata de escolher entre força e grandeza. Entre razão e coração. Entre vencer e ceder. A maturidade é perceber que cada dia pede uma postura diferente. E que evoluir não é subir. É aprofundar.
Um dia você será forte. No outro será grande. Se tiver sorte será ambos.
