Alteridades

Alteridades
Quantas vezes você sorriu para ser agradável a alguém? 
Quantas vezes você já quis sair correndo de um lugar, mas ficou por educação? 
Quantas vezes você se esqueceu de seus problemas e com um sorriso no rosto foi ajudar alguém? 
Quantas vezes você abriu mão do que mais amava porque diziam que era errado? 
Criticar é fácil, vestir suas dores ninguém quer. 
Precisei aprender a buscar novas pessoas, ouvir novas músicas, encontrar novos caminhos. Lembrar de quem não se importava comigo já não estava me fazendo bem.

 


Repara nisso. Quase tudo o que você chama de educação foi treino. Treino para caber. Treino para não incomodar. Treino para sorrir quando o corpo queria ir embora. Esse sorriso não é leve. Ele pesa. Pesa porque nasce do medo de ser mal interpretado. Do medo de parecer ingrato. Do medo de perder um lugar que talvez nunca tenha sido seu. Existe um tipo de violência elegante que ninguém denuncia. Ela não grita. Ela agradece. Ela diz “imagina” quando queria dizer “chega”. Ela permanece sentada quando tudo dentro já levantou. Essa violência não deixa marcas visíveis. Mas cria um hábito. O hábito de se abandonar com boas maneiras.

Você aprende cedo que ser aceito é mais seguro do que ser inteiro. Então começa a negociar partes de si. Primeiro são pequenas concessões. Um silêncio aqui. Uma opinião engolida ali. Depois você já não sabe mais onde termina a convivência e começa a traição pessoal. O mundo aplaude sua flexibilidade. Mas não te sustenta quando você dobra demais. Há uma mentira muito bem aceita socialmente. A de que ajudar sempre é virtude. Nem sempre é. Às vezes é fuga. Fuga de olhar para a própria bagunça. Fuga de enfrentar o vazio que aparece quando você para. Ajudar pode ser uma forma sofisticada de não se escutar. Você se torna útil para não ter que ser honesto consigo.

Existe gente que se orgulha de aguentar tudo. Isso não é força. É anestesia. Força não é suportar. Força é escolher. E escolher às vezes decepciona. Quem nunca decepciona ninguém geralmente já desistiu de si mesmo há muito tempo. Percebe como o certo e o errado foram usados como coleira? Quantas vezes você abriu mão do que amava porque disseram que não combinava com você. Não era maduro. Não era adequado. Não era agora. O curioso é que o agora nunca chega quando você vive para cumprir expectativas alheias. Sempre falta algo. Sempre falta você.

Criticar é barato, por isso é tão popular. Vestir a dor do outro custa caro. Exige presença. Exige silêncio. Exige não ter respostas prontas. O crítico aponta de fora. O consciente atravessa por dentro. A maioria prefere o palanque ao espelho. Chega um momento em que o ambiente começa a te adoecer lentamente. As conversas não nutrem. As músicas não atravessam. As pessoas repetem as mesmas histórias como se fossem verdades eternas. E você chama isso de lealdade. Mas talvez seja apenas medo de mudar o cenário. Mudar o cenário implica admitir que aquele antigo não estava funcionando. E isso fere o orgulho.

Buscar novas pessoas não é traição. É sobrevivência. Ouvir novas músicas não é modinha. É oxigênio. Encontrar novos caminhos não é instabilidade. É inteligência adaptativa. Só os mortos permanecem iguais. Tem coisas e lembranças que não merecem altar. Lembrar de quem não se importava com você pode parecer humildade. Mas às vezes é só insistência em mendigar validação onde nunca houve interesse. Algumas portas não se fecharam por injustiça. Se fecharam por lucidez tardia.

Existe uma cena que se repete na vida de quase todo mundo consciente. Você começa a se retirar emocionalmente antes de sair fisicamente. Ainda está ali. Mas já não entrega tudo. Já observa mais do que participa. Isso não é frieza. É preparo interno para a mudança. É o espírito arrumando as malas antes do corpo. Nem todo mundo que te cerca quer te ver crescer. Alguns precisam que você permaneça pequeno para que eles não tenham que se mover. Crescimento alheio constrange quem escolheu estagnar. Então eles chamam sua evolução de egoísmo. Estratégia antiga. Funciona porque culpa ainda é uma moeda poderosa.

Você não deve nada ao papel que te deram sem te perguntar se cabia. Você não é ingrato por mudar. Ingrato é permanecer por medo e chamar isso de caráter. Caráter não é permanência cega. É coerência interna. A percepção disso começa quando você entende que o outro não é régua para medir sua existência. O outro é espelho ocasional. Não juiz. Não dono. Não destino. Você pode respeitar sem se anular. Pode amar sem se diminuir. Pode partir sem odiar.

Quanto mais você se torna inteiro menos você precisa provar qualquer coisa. O silêncio fica mais frequente. As escolhas mais firmes. As relações mais raras. Não porque você se isolou. Mas porque parou de aceitar migalhas emocionais disfarçadas de convivência. Porque no fim não se trata de ser duro. Se trata de ser honesto. Honesto com o próprio desconforto. Honesto com o próprio desejo. Honesto o suficiente para admitir que algumas versões suas precisavam morrer para que algo mais vivo pudesse existir.

Isso assusta, mas ficar onde você não cabe também mata — só que aos poucos — e ainda por cima com um sorriso educado no rosto.