O Âmago das Presenças Ausentes

O Âmago das Presenças Ausentes

O salão aguarda a noite como um corpo espera a febre.
Há uma eletricidade estagnada que se deposita nas superfícies.
As cadeiras de veludo azul dispostas em linhas simétricas guardam impressões de cansaços breves e vícios antigos.
A luz filtrada por abajures de cúpula amarelada constrói pequenas ilhas de penumbra entre as mesas.

A mesa central mais próxima da janela revela copos de vidro levemente embaçados como se cada gole ali tomado tivesse deixado um espectro no ar.
A cortina de tecido grosso e gasto perto do chão permite a passagem de um vento quase imperceptível e junto dele o cheiro fugidio de chuva passada e as ressonâncias amortecidas da cidade lá fora.

Há um relógio de parede que engole o tempo em intervalos irregulares como se estivesse hipnotizado pela própria eternidade do tédio.

O homem de terno cinza escuro sentado sozinho à margem da mesa exibe uma postura ereta e plastificada.
As mãos repousam sobre o tampo mas os dedos traem uma inquietação invisível.

Primeiro pressionam o vidro do copo em movimentos circulares.
Depois alisam o próprio punho como se buscassem um segredo escondido no tecido.

As sobrancelhas desenham uma pequena inclinação para baixo.
O olhar se desloca de modo errático.
Ora detém se no reflexo de luzes quebradas no chão encerado.
Ora retorna aos contornos da moldura de um quadro abstrato na parede.

O maxilar trabalha em silêncio.
Pequenas contrações na mandíbula acompanham microgestos de recuo das narinas e uma leve compressão nos lábios.

O silêncio à sua volta não é neutralidade.
É o vazio pressionando de dentro para fora.

Sob o terno há uma armadura de músculos contratados e uma cavidade torácica expandida demais como se respirasse para compensar fantasmas que lhe habitam o peito.

O olhar quando cruza com o de algum desconhecido parece buscar sinais de ameaça e ao mesmo tempo implorar por um tipo de dissolução.

A mulher a três cadeiras de distância veste um vestido bordô que parece beber a pouca luz do ambiente.
As costas estão curvadas para frente.
Cotovelos pousados na mesa.

Uma taça segurada por duas mãos como se fosse âncora ou exílio.
Os olhos carregam um brilho enevoado mas alerta.

Não há flutuação de sono.
Só uma vigília entranhada que não descansa.

O dedo indicador traça linhas invisíveis no vidro repetindo um padrão que em nada evolui.
Antes mergulha numa espécie de labirinto mudo.

Os cabelos repousam soltos sobre os ombros mas há uma mecha atrás da orelha que ela ajeita a intervalos regulares.

Os momentos de pausa entre esse gesto e o próximo se alongam preenchidos por vozes que não chegam a ser pronunciadas.

A pele do pescoço exibe manchas avermelhadas pequenas e dispersas.
Marcas de ansiedade antiga que aprenderam a se disfarçar sob a rotina.

Na extremidade oposta do salão um adolescente permanece fixo no canto onde as luzes não alcançam por inteiro.

As roupas largas e o capuz pousado parcialmente sobre os olhos compõem um casulo de resistência muda.

O telefone nas mãos serve de escudo e de prisão.
O polegar desliza a tela infinitamente mas o olhar não lê nada.

Perambula por uma paisagem de notificações apagadas como quem percorre um deserto sem nomes.

Há um tremor tão leve no joelho direito que apenas a sombra percebe o movimento.

Os ombros são duas linhas tensas travadas como se sustentassem um peso invisível.

O rosto é jovem mas a pele já exibiu o cansaço de muitas noites insones.

Os lábios comprimem palavras não pronunciadas.
Talvez insultos dirigidos a si mesmo.
Talvez preces para que ninguém se aproxime.

O cheiro de suor úmido misturado ao perfume sintético do desodorante paira brevemente ao redor.
Partícula fugidia de vergonha e desejo de sumir.

O garçom atravessa o espaço com passos silenciosos e suaves.
Os sapatos polidos em excesso absorvem reflexos das luzes fracas.

O corpo magro parece sempre inclinado para frente numa antecipação involuntária do cansaço.

O olhar nunca se fixa no rosto de ninguém.
Desliza rápido como se o excesso de contato queimasse a pele.

As mãos firmes no gesto de segurar a bandeja exibem a pele pálida nos nós dos dedos.
Marcas leves de compulsão por limpeza.

Quando recolhe copos e pratos evita qualquer ruído.
A busca pela invisibilidade é absoluta.

Entre as mesas o corpo do garçom se move como sombra dançando entre presenças ausentes.
Um intermediário do silêncio coletivo.

A atmosfera do salão pulsa com uma respiração própria.

Os sons que chegam do bar o tilintar de gelo o roçar de garrafas uma contra a outra um riso abafado de alguém atrás do balcão.

Tudo ecoa como fragmentos de memórias deslocadas.

O ar carrega uma densidade pastosa.
O cheiro de álcool derramado convive com nuances de perfume importado e o azedume discreto da ansiedade suprimida.

Sob a superfície do convívio desenrola se o longo tapete do desamparo.

Nenhum sorriso é inteiramente espontâneo.

Cada gesto de cortesia uma mão estendida um leve aceno carrega o retardo de quem calcula as consequências do envolvimento.

Aqui o medo de abandono infiltra se como infiltração silenciosa nas paredes.

Ninguém quer ficar.
Ninguém suporta partir antes de ser notado.

A solidão aqui não é ausência de companhia.
É excesso de presenças não digeridas.

Os fragmentos emocionais se acumulam no ar como poeira não varrida obscuros e persistentes.

O tempo transcorre sem ritmo definido.
O relógio segue mastigando a noite mas ninguém sente avanço.

Cada minuto repete se com a mecânica de um vício.

Os que estão ali todos carregam pequenas fendas na máscara.

Traços de vazio que tentam cobrir por cima com conversas ou copos cheios.

A insônia do adolescente.
O medo difuso do homem no terno.
A exaustão disfarçada do garçom.
O desespero lúdico da dupla de amigos.
O cansaço agudo da mulher de vestido bordô.

Tudo se entrelaça em uma tapeçaria que encobre mais do que revela.

E então acontece o mais estranho.

Nada ali é plenamente sofrimento.
Nada é plenamente prazer.

É mistura.

É um sistema tentando se autorregular.

Como se cada pessoa fosse uma sala dentro do próprio peito.
E o salão fosse o corredor onde essas salas se esbarram sem abrir as portas.

E o relógio continua.

Mastiga.
Engole.

Devolve a noite em parcelas.

Como se dissesse sem palavras o que ninguém ali consegue dizer em voz alta.

Que a dor humana é muitas vezes só isso.

Um corpo tentando não sentir sozinho.