Da agressão ao Feminicídio

Da agressão ao Feminicídio

A agressão de um homem contra uma mulher não nasce de um raio repentino. Ela nasce de uma ideia antiga que encontra um corpo disponível. A ideia equivocada é simples. A mulher existe para servir, ceder, perdoar, ficar. Quando ela contraria essa expectativa, a mente agressora não lê como limite. Lê como afronta. A agressão então começa como linguagem. Uma frase que diminui. Um olhar que vigia. Um silêncio que pune. Um comentário que isola. Um toque que não pede permissão. A violência é antes de tudo um método de conduzir a realidade para um ponto onde só uma vontade prevalece e a vontade que prevalece é a dele. Livros sobre comportamento e personalidade lembram que o humano aprende padrões e os mantém quando funcionam, mesmo quando são cruéis. A repetição cria trilhas. A atenção cola no que ameaça. A memória grava o que dói. A plasticidade faz o restante. O cérebro se ajusta ao que se repete e o casal vira um laboratório íntimo onde a dominação se torna rotina.

Quando se procura a personalidade do agressor, o erro mais comum é imaginar um monstro raro. Muitos agressores são comuns. Eles trabalham, conversam, fazem piadas e são “bons” com quem não os desafia. O núcleo não é fúria constante. É direito percebido. É a convicção de que ele pode. A psicologia da personalidade ajuda a nomear a moldura. Há traços ligados a baixa autorregulação, impulsividade, busca de gratificação imediata e dificuldade de sustentar frustração. Há também frieza emocional em certos perfis, além de hostilidade e antagonismo. O detalhe decisivo é que isso não vira crime sozinho. Vira crime quando se junta a uma moral de posse e a um contexto oferecem cobertura. Modelos de autorregulação e a discussão sobre personalidade e seus desvios ajudam a enxergar como falhas de controle podem se transformar em padrão e como o indivíduo pode usar o ambiente para sustentar o próprio desequilíbrio.

William James descreve impulsos e instintos que empurram a ação, incluindo a pugnacidade, e mostra como emoção e vontade se entrelaçam com o corpo e com o foco da atenção. Ele aponta a vontade como capacidade de sustentar uma ideia e não apenas sentir um impulso. Isso é importante porque o agressor costuma alegar que “perdeu a cabeça”. Só que a violência doméstica raramente é pura explosão. Ela tem oportunidade escolhida. Ela tem cenário protegido. Ela tem cálculo. Se fosse incapacidade total de controle, o homem agrediria o chefe, o policial, o desconhecido mais forte. Mas ele seleciona a vítima mais próxima e mais vulnerável. Isso é covardia. É a escolha do lugar onde a punição é improvável e a resistência é difícil.

O agressor aprende a ocupar o espaço. Ele fecha portas com o corpo. Ele controla a saída com a presença. Ele usa a mão no ombro como aviso. Ele usa o celular como coleira. Ele usa o tom baixo para ameaçar sem plateia. Ele usa o sorriso para confundir e depois negar. A vítima por sua vez aprende outra língua. Ela aprende a prever. A perceber micro mudanças. A medir risco pelo ritmo da respiração dele e pelo modo como ele pega um objeto. Essa aprendizagem não é fraqueza. É adaptação.

A escalada tem uma lógica. Primeiro vem a desqualificação. Depois vem a separação do mundo. Amigos viram ameaça. Família vira interferência. Trabalho vira suspeita. Em seguida vem a troca de culpa. Ele bate e ela “provoca”. Ele trai e ela “abandona”. Ele grita e ela “não respeita”. Esse mecanismo é um motor. Ele permite que o agressor se sinta correto enquanto destrói. Em psicopatologia existe um cuidado com linguagem. Nomear bem é parte do tratamento e parte da justiça. Quando se chama agressão de “briga” se limpa o crime. Quando se chama controle de “ciúme” se romantiza a jaula. Abordagem de forma clara e honesta é uma forma de impedir que o horror vire costume.

A agressão gera medo e o medo gera obediência. A obediência funciona como recompensa para o agressor. Depois vem a fase de reparação. Desculpa, promessa, presente, choro, juramento. A vítima recebe alívio temporário e confunde alívio com melhora. O alívio também reforça a permanência. Assim se constrói uma prisão sem grades. A violência não precisa acontecer todo dia. Basta acontecer quando a mulher tenta recuperar a própria autonomia. O que se aprende ali é cruel. Aprender que silêncio é segurança. Aprender que discordar é perigo. Aprender que sair pode custar a vida. Conceitos de aprendizagem, contingências e manutenção de padrões ajudam a descrever esse mecanismo sem magia e sem desculpa.

O passo seguinte é o mais revelador. Quando a mulher tenta romper, o agressor não sente apenas tristeza. Ele sente perda de domínio. E a perda de domínio é vivida como humilhação. É por isso que a fase mais perigosa costuma ser a da separação. O agressor então intensifica vigilância, ameaça, perseguição, chantagem com filhos, chantagem financeira, exposição pública e humilhação. Aqui a covardia aparece inteira. Ele não quer conversar. Ele quer impedir. Ele não quer ser amado. Ele quer ser obedecido. Jung lembra que as relações humanas sofrem com antagonismos e projeções e que compreender a si mesmo muda a forma como se enxerga o outro. O agressor faz o oposto. Ele projeta culpa e transforma a mulher em inimiga para justificar a própria violência.

O feminicídio é a forma final dessa lógica. Não é um ato “romântico”. É execução. É o ponto em que o agressor decide que a mulher não terá futuro fora do alcance dele. É a tentativa de transformar autonomia em cadáver para restaurar o próprio sentimento de poder. Há um instante moral que separa o homem que sofre do homem que mata. Esse instante é a escolha. E a escolha se alimenta de crenças repetidas. Que mulher é propriedade. Que mulher deve pagar. Que mulher não pode dizer não. Compreender o comportamento serve para entendermos por que agimos e como mudar, isso vira denúncia quando aplicada aqui. O agressor não muda porque a violência funciona. Ele muda quando deixa de funcionar. Quando há consequência real. Quando há intervenção. Quando há perda do que ele usa para dominar.

Falar sem medo sobre isso é recusar os disfarces. Agressor não é “ciumento demais”. É controlador. Não é “nervoso”. É violento. Não é “impulsivo”. É estratégico. E quando mata, não foi “um momento”. Foi o fim de uma trajetória construída com pequenas permissões diárias. A sociedade participa quando ri do controle como prova de amor. Quando chama ameaça de drama. Quando pergunta o que ela fez. Quando aconselha paciência para o que é crime. Da agressão ao feminicídio existe uma linha contínua. Ela é feita de linguagem, rotina, medo e silêncio. E ela só se rompe quando se nomeia a covardia pelo nome, quando se protege a mulher com seriedade e quando se retira do agressor o prêmio que ele busca — poder sem custo.

A escalada da agressão até o feminicídio não acontece por acidente. Ela se alimenta de um modo de funcionamento em que a força vira linguagem e o outro vira objeto. O homem agressor não agride porque perde o controle como quem tropeça. Ele agride porque aprende a usar a agressão como ferramenta e porque, em algum ponto, decide que sua vontade vale mais do que a dignidade de quem está ao lado. A covardia aparece no método. Ele testa limites, mede o silêncio, calcula o isolamento, alterna dureza e concessão para confundir a realidade e enfraquecer a resistência. Quando isso se repete, a violência deixa de ser um episódio e vira um sistema.

Na mente do agressor, a raiva costuma ser só a face visível. Por baixo, há uma combinação perigosa de impulsividade, hostilidade e uma forma de autocentramento que empobrece o vínculo humano. Em psicopatologia, a impulsividade tem relação com controle inibitório e circuitos pré-frontais. Quando esse controle falha ou é deliberadamente abandonado, atos agressivos podem emergir com mais facilidade, sobretudo em contextos de excitação e ameaça percebida. A ameaça, porém, muitas vezes é fabricada. Pode ser um olhar interpretado como desrespeito. Pode ser uma mensagem no celular. Pode ser o simples fato de a mulher existir com autonomia. Nessa lógica, a autonomia vira afronta. O agressor busca uma posição em que só ele define o que é aceitável.

Em alguns perfis, o narcisismo não é vaidade superficial. É uma organização do eu em que o investimento afetivo se concentra em si mesmo e o outro serve como espelho ou propriedade. Quando essa estrutura domina, a relação não é encontro. É uso. Dalgalarrondo descreve como o indivíduo “totalmente narcísico” não se relaciona de fato com o mundo e se empobrece. Isso ajuda a entender por que a dor alheia não freia o gesto. Não há freio porque o outro não é sentido como outro. E quando a mulher ameaça sair do papel de espelho e posse, o agressor pode recorrer ao que sempre funcionou. Medo. Humilhação. Violência.

A personalidade dá pistas, não sentença. Ainda assim, a psicologia dos traços mostra como certos padrões são estáveis e têm consequências. Hostilidade aparece como um núcleo tóxico em alguns conglomerados de traços. Ela se liga ao antagonismo e ao baixo grau de amabilidade. Pessoas com alto neuroticismo tendem a ter vulnerabilidade ao estresse e vieses cognitivos. Num agressor, isso pode virar reatividade, suspeita, interpretação persecutória do cotidiano. Mas é essencial não romantizar essa explicação. Disposição não é desculpa. Traço não absolve. O que importa é o padrão. Repetição. Escalada. E a presença de controle e punição como forma de governar o vínculo.

O agressor também manipula o clima emocional. Goleman descreve como a mente emocional pode arrebatar a mente racional e depois a pessoa racionaliza o que fez, justificando reações sem perceber a influência da memória emocional. Isso combina com a frase clássica do agressor. “Você me provocou.” “Eu fiz porque te amo.” A justificativa vem pronta. Ela serve para reescrever a realidade e para treinar a mulher a duvidar do que viu. O cérebro dela começa a negociar com o perigo. Tenta prever o humor dele. Aprende a reduzir a si mesma para evitar o estopim. E, sem perceber, vai trocando vida por estratégia de sobrevivência.

É aqui que a mulher precisa recuperar um tipo específico de lucidez. Não a lucidez fria que nega o medo. A lucidez que escuta o corpo e traduz sinais em decisão. A comunicação não verbal existe mesmo quando ninguém fala. “O corpo fala”, muitas vezes de modo inconsciente. Um olhar prolongado pode ser percebido como agressão. Posturas fechadas, braços cruzados com força, lábios apertados, distanciamento e orientação do corpo para “sair” do contato são indicadores de ameaça percebida e defensividade. Esses sinais, isolados, não provam violência. Mas dentro de um histórico de controle, ciúme e punição, eles funcionam como alarme. O ponto não é decifrar cada gesto. É reconhecer o conjunto. Mudança súbita de tom. Fixação. Invasão de espaço. Interrogatório repetido. Desprezo. Ameaça velada. E depois o “perdão” que vem como anestesia.

O silêncio da mulher não nasce do nada. Muitas vezes nasce de um diálogo interior deteriorado. Relações humanas incluem comunicação intrapessoal, esse diálogo interno que organiza escolhas e limites. Quando ele é corroído, a pessoa perde a referência do que merece. Em psicopatologia, a diminuição da valoração do eu aparece com força em quadros depressivos, com sentimentos de menos valia e autodepreciação. E mesmo fora de um diagnóstico, a dinâmica do abuso produz algo parecido. A mulher passa a se sentir culpada por existir. Sente que incomoda. Que exagera. Que “mereceu”. Esse é um dos triunfos mais obscenos do agressor. Fazer a vítima administrar a própria submissão.

Há ainda um mecanismo comportamental que prende. O reforço intermitente. Quando a resposta vem às vezes, a persistência aumenta e a extinção fica mais difícil. Na vida real, isso aparece como alternância de crueldade e carinho. Hoje ameaça. Amanhã chora. Hoje humilha. Amanhã presenteia. O afeto vira pagamento. A paz vira recompensa por obediência. E a mulher, que quer coerência, investe mais para recuperar o “homem bom” que aparece em raros intervalos. Esse jogo não é romance. É condicionamento. Se ela entende isso, uma parte do feitiço quebra.

Perceber antes exige parar de negociar com sinais iniciais. O primeiro empurrão não é “um momento”. A primeira chantagem não é “ciúme fofo”. A primeira proibição não é “cuidado”. O começo costuma ser pequeno porque precisa ser aceito. O agressor estuda o que funciona. Ele observa se a mulher recua quando ele eleva a voz. Se ela se explica demais. Se ela pede desculpas pelo que ele fez. Se ela abandona amigos para evitar conflito. Ele aprende rápido. E repete. A análise do comportamento lembra que o comportamento é determinado por contingências atuais e também por exposições prévias. Isso vale para ele e para ela. Para ele, porque repete o que dá resultado. Para ela, porque repete o que reduz a dor no curto prazo. E é exatamente aí que o curto prazo mata.

Não se calar não é gritar mais alto. É sair do labirinto. É nomear com precisão e procurar testemunhas. A violência doméstica prospera no privado. Ela encolhe quando encontra luz. O primeiro passo é construir realidade compartilhada. Contar a alguém de confiança. Registrar o que acontece. Guardar mensagens e ameaças. Não para “vingar”. Para impedir que a história seja reescrita. A segunda peça é recuperar competência intrapessoal. Autoconhecimento e controle emocional aparecem como componentes de competência que fortalecem relações e decisões. Controle emocional aqui não é tolerar abuso. É impedir que o medo dite o roteiro. É decidir quando sair. Para onde ir. Com quem falar. Que portas bater.

Também é decisivo reconhecer certos estilos de fala e de presença que sustentam o domínio. Em transtornos de personalidade, Dalgalarrondo descreve como, no dependente, a fala pode buscar aprovação e evitar negativas. Sem transformar mulheres em “tipos”, essa descrição ajuda a enxergar um risco. Quando alguém passa a não conseguir dizer não, a relação vira terreno fértil para abuso. O agressor percebe. E usa. Por isso, romper o silêncio inclui praticar negativas simples. Estabelecer limites claros. Não argumentar até a exaustão. Não implorar compreensão de quem lucra com a confusão.

Há um ponto em que a moral precisa ser direta. O homem que agride uma mulher é covarde porque escolhe um alvo em que acredita poder vencer. Ele não quer diálogo. Quer submissão. Ele usa medo porque não tem grandeza para encarar frustração, contradição e limite. E quando o caminho se aproxima do feminicídio, a lógica é a do dono que prefere destruir a perder a posse. Isso não é amor ferido. É poder bruto.

Se você quer continuidade verdadeira, ela termina numa frase simples, com custo alto e verdade limpa: nenhum vínculo vale a sua integridade. Quando a violência aparece, o amor já foi substituído por controle. Quando o controle falha, o agressor tende a aumentar a dose. Por isso a antecedência importa. Por isso a fala importa. Por isso a rede importa. E por isso a saída, quando necessária, precisa ser tratada como proteção e não como drama. A vida de uma mulher não é um campo de testes para a maturidade emocional de ninguém.