A Mulher Que Bebia Com as Próprias Feridas

Abraham Cezar
A Mulher Que Bebia Com as Próprias Feridas

Sempre achei curioso dizerem que certas fases da vida pedem bares, música alta, abraços efusivos e conversas atravessadas pelo álcool. Talvez infelizmente nunca me encaixei nisso. Sempre senti que tenho idade errada, não pela cronologia, mas pela maneira como meu espírito repousa melhor na solitude do que em qualquer celebração ruidosa. Gosto da minha presença. Do silêncio que ela oferece. Do espaço interno que se abre quando o mundo lá fora diminui.

Mas vivemos em sociedade, e às vezes é preciso empurrar a porta da própria bolha e entrar no território dos outros. Foi assim naquela noite. Aniversário de um amigo da faculdade. Um bar lotado, corpos próximos demais, luzes coloridas, risadas que aparentemente em maioria não combinavam entre si. O tipo de ambiente onde as pessoas se misturam até perderem a própria frequência. Entrei porque devia. Fiquei porque a vida empurra. Mas observei porque é disso que sou feito.

E entre centenas de pessoas, vi apenas uma.

Não porque fosse mais bela. Não porque fosse mais intensa. Mas porque havia nela um tipo de sofrimento que não sabia se esconder. Uma fronteira rompida. Uma chama instável. Um pedido silencioso de socorro que não saía pela boca, mas pelo corpo inteiro. O bar desapareceu. Os outros se tornaram sombra. O mundo estreitou-se até caber nela.

Ela estava perto do balcão, segurando um copo que nem era dela. Os dedos apertavam o vidro como se segurassem o próprio pulso. A expressão oscilava entre risada e desespero, aquela oscilação que profissionais da psiquiatria conhecem bem. O rosto mostrava microexpressões rápidas demais para uma emoção só. A literatura descreve isso como affect instability, a marca mais evidente do transtorno de personalidade borderline. Emoções que mudam de cor antes mesmo de serem compreendidas.

Quando ela ria, havia um brilho desajustado no olhar. Não era alegria. Era uma tentativa de expulsar a dor. A alegria dela era solda, não luz. Tentava manter juntas partes que já estavam se quebrando. E apenas quem entende a oscilação borderline reconhece isso à primeira vista.

Ela conversava com um homem, mas a conversa era performance. O corpo dela inclinava-se na direção dele, mas a alma recuava. E cada vez que ele desviava o olhar para o celular, a expressão dela se contraía como se o abandono estivesse acontecendo ali, em tempo real. Borderlines não reagem ao presente. Reagem ao passado inteiro reencenado em milésimos de segundo.

O bar inteiro parecia se mover em ondas, mas ela permanecia presa em um mar agitado só dela. Havia cortes antigos nos braços, escondidos por pulseiras largas. Pulseiras usadas não como adorno, mas como muro, mas com pouco tempo de observação você via as cicatrizes. Automutilação não é estética. É sobrevivência de um grito interno. Uma tentativa de sentir o corpo quando a mente ameaça transbordar.

Ela bebeu mais um gole e logo depois empurrou o copo para longe. O barulho do vidro no balcão denunciou a impulsividade típica, o comportamento descontínuo, a pressa em sentir e a pressa em deixar de sentir. Borderline é intensidade crua. Não existe meio-termo. As emoções vêm como tempestades elétricas. Iluminam tudo e queimam tudo ao mesmo tempo.

A amiga dela tentou acalmá-la. A mão pousou em seu ombro. Ela se afastou tão rápido que parecia ter sido tocada por fogo. Relações instáveis e medo de abandono se misturam como veneno e antídoto. Quer proximidade. Quer fuga. Quer ser amada. Quer desaparecer. Quer que alguém fique. Espera que alguém vá. E sofre em todas as combinações.

Por um instante ela encarou o espelho atrás do balcão. O reflexo dela parecia partido. Os olhos marejados, a boca tremendo, a postura rígida como se sustentasse o próprio mundo nas costas. O espelho não devolve apenas imagem. Devolve identidade. E identidades borderline costumam ser fragmentadas. Sem eixo. Sem estrutura contínua. Um eu que muda conforme o afeto muda. Conforme o medo muda. Conforme a solidão se aproxima.

Foi então que ela fez algo que nunca esqueço. Abaixou a cabeça e murmurou, quase sem voz:
“Eu não aguento mais ser eu.”

A frase atravessou meu peito como lâmina fina. Essa é a dor borderline. Não é teatral. Não é manipulação. É existência em carne viva.

A amiga dela chorou. A mulher não. A mulher estava além do choro. Em um estado dissociativo leve, onde a dor é tão grande que deixa de parecer dor e vira anestesia. A literatura descreve isso como identity disturbance acoplada a affective overload. O sistema emocional falha. A mente tenta desligar. O corpo fica preso no entrelugar.

Eu olhei para ela e senti que tudo ao redor sumiu. Música, gente, aniversário, risos, bebidas. Nada importava. O sofrimento dela era grande demais para caber em ambiente tão pequeno. Ao mesmo tempo, ela parecia gritar sem som, como se implorasse que alguém a visse por dentro.

E eu vi.

Não conheço essa mulher. Não sei seu nome. Mas reconheço sua estrutura psíquica como quem lê um mapa antigo que já decorou.

Ela precisava de ajuda. Ajuda real. Ajuda profunda. Ajuda que não vem em copos nem em abraços momentâneos.

E ali, naquele bar lotado, eu entendi algo que repito agora como se fosse oração:

Algumas pessoas não se perdem por falta de amor.
Se perdem pela intensidade com que sentem tudo.
Pela nitidez com que enxergam o abandono antes dele acontecer.
Pelo desespero de tentar existir num corpo que sempre dói.

Ela saiu apressada do bar, os passos instáveis, o coração maior do que o mundo que a esmagava. A amiga correu atrás. Eu fiquei parado, sabendo que testemunhara uma alma em combustão. E compreendi que, por mais que eu ame a psiquiatria, ela nunca será apenas estudo.

Psiquiatria é encontro. É reconhecer a dor que o outro nem sabe nomear. É atravessar bares, ruídos, multidões, só para enxergar alguém que o mundo ignora.

E naquela noite, a única pessoa que realmente existiu ali…
foi ela.