No limiar da manhã lenta a luz cinzenta atravessa as cortinas já gastas de um apartamento inominado. O tecido filtra o dia como óleo denso escorre entre paredes porosas e invade a sala saturada de objetos imóveis. Acúmulo de pequenas presenças inertes. Umidade marcescente nas frestas e o cheiro ácido de café velho encostando-se à pele. O relógio de madeira, esquecido na parede, emite compassos vagarosos como um pulso cardíaco entorpecido pela rotina. Do sofá gasto emerge o corpo da mulher de trinta e tantos anos, cujos gestos se desenham no espaço sem pressa de chegar a lugar algum. As pálpebras pesam e o ato de respirar exige esforço deliberado. O tempo coagula nela, solidificando presenças fantasmáticas de um passado indistinto. Entre o ranger sutil das molas e o movimento hesitante dos dedos, há uma contração muscular tímida, uma tensão nas articulações que denuncia a fadiga emocional. O olhar não repousa em canto algum, apenas desliza pelas superfícies como se procurasse um eixo inexistente.
Em silêncio, ela se curva levemente para a frente. O gesto parece calibrado por um medo ancestral de ruptura, uma hipervigilância submersa em cada tendão do pescoço e nas linhas tensas dos ombros. A respiração oscila sutilmente: inspiração pouco profunda, expiração abortada antes de se completar. Pelos corredores estreitos do apartamento, atravessa um som quase inaudível de passos cuidadosos, nunca decididos, impregnados de auto-observação. O ambiente responde: o azulejo frio devolve ao corpo uma lembrança de ausência, as lâmpadas de luz amarelada projetam sombras oblíquas e longas, estirando identidades até diluí-las. Respinga no ar uma sensação viscosa de isolamento que impregna tudo, até a mobília. Ela percorre a cozinha, mãos trêmulas ao redor de uma xícara lascada, unhas curtas e irregulares, sinais discretos de ansiedade descascando no movimento compulsivo. Há uma busca inconsciente por ritual, um recalque daquilo que fere. A água fervida é vertida sobre o pó escuro como se cada etapa evitasse as próximas perguntas íntimas demais.
Permanecem vultos da noite anterior, sintomas dispersos no corpo. Fragmentos de lembranças cortam a superfície do pensamento. A risada seca de alguém ao telefone, a frustração engolida em silêncio, o eco de palavras que não emergiram porque o limite do possível se esgarça em cada diálogo. O telefone repousa sobre a mesa, desligado, objeto de fetiche mórbido e fuga, oráculo ambíguo da solidão moderna. O olhar retorna a ele várias vezes durante a manhã, mas a mão apenas toca o aparelho com a ponta dos dedos, como quem verifica se o mundo ainda existe além daquilo que se repete internamente. Os músculos da mandíbula se contraem num esforço rígido para conter algo que borbulha invisível. Há uma relação estranha entre a fome física e o vácuo emocional: ela belisca pedaços de pão como quem tateia a própria existência, mordidas pequenas para não exceder o espaço permitido pela culpa crônica.
O ambiente se insinua como expansão do estado de espírito. O carpete manchado, as roupas penduradas em cadeiras, o odor doce-amargo de perfume antigo que impregna cortinas. Tudo parece suspenso numa vigília estática. O sol se arrasta pelo piso, mas não aquece nada de fato, apenas revela partículas de pó flutuando como pensamentos recalcados. Entre as paredes ressoa um silêncio que não é ausência de som, mas excesso de pensamentos não ditos, camadas sedimentadas de tudo aquilo que não pode ser nomeado. O corpo se move em ciclos compulsivos, caminhando da sala à cozinha e ao banheiro. Diante do espelho, o rosto apresenta fissuras: olheiras fundas, lábios entreabertos, olhos que evitam o próprio reflexo. A identidade se esfarela aos poucos na superfície prateada, e a sensação de estranhamento transborda em pequenas dissociações. Gestos automáticos, microexpressões de fuga. A ansiedade se revela na necessidade de alinhar objetos, de limpar superfícies já limpas, de conferir trancas pela terceira vez.
A rigidez sutil dos dedos denuncia o esforço para manter o controle. Em cada ato, espreita o medo de que algo escorregue. Do lado de fora, o ruído abafado de carros passando, vozes distantes, crianças rindo no pátio do prédio. O mundo existe, mas não atravessa as paredes. O isolamento não é escolha, mas sentença. Há uma espera sem objeto, um tédio que não se explica, apenas se sente atravessando o peito com peso concreto. Os livros organizados na estante, cada um marcado por dobras discretas, denunciam buscas interrompidas antes da compreensão. Nos títulos, pistas dispersas: psicopatologia, identidade, solidão, manuais de comportamento humano. Livros anotados à margem, tentativas de mapear um território íntimo demais para reconhecimento externo.
O telefone vibra em determinado momento, e o susto é mínimo mas real. Uma contração súbita nos ombros, o franzir de cenho quase imperceptível. A mensagem não é lida imediatamente. Estranha-se o próprio impulso de resposta. O medo de abandono é uma presença latente, uma pressão contínua que atravessa o corpo em ondas surdas. O desejo de aproximação se choca com a repulsa súbita, e a oscilação entre se lançar no contato ou retroceder toma contornos quase rituais. O impulso de abrir a janela, respirar fundo, sentir o ar gelado no rosto, revela a busca desesperada por algum pertencimento orgânico ao mundo, por algum fio de sentido que se infiltre pelos poros. Mas tudo retorna ao vazio denso da sala, ao ritual insosso do café, ao toque automático em objetos familiares.
Surge uma lágrima furtiva quando tudo parece imóvel. Não é tristeza pura, é uma liberação breve de algo que não encontra canal adequado. Logo o gesto de enxugar a face é automático, sintoma de vergonha incorporada. Ninguém vê, mas a máscara emocional falha, e por um instante há rachadura. O corpo deseja recolher-se, encolher-se, tornar-se invisible até para si mesmo. Os pensamentos giram em torno de cenários improváveis, hipóteses de abandono, previsões de fracasso. Não há alarde em nenhum desses pensamentos, apenas o frio constante do que nunca se dissipa de verdade. O desejo de desaparecer se alterna com o impulso de ser visto, reconhecido, resgatado. A ambivalência pulsa como febre baixa, erode a superfície da personalidade, rompe vinculações frágeis.
O cenário externo se curva à atmosfera interna. O tempo avança sem testemunho, as horas se alongam como elásticos prestes a romper. O corpo se entrega à repetição: liga a televisão sem som, observa as imagens desfilando, tenta capturar algum sentido ali. Impossível. Apenas vê desfilar corpos, expressões, movimentos que parecem distantes, quase paródias do real. A sensação de não habitar plenamente o próprio corpo se faz mais densa. Dissociações leves: o olhar atravessa o ambiente como se flutuasse alguns centímetros acima da pele. O toque no braço, uma leve pressão, apenas para confirmar que ainda existe ali alguma substância. O cheiro de suor ansioso, imperceptível para outros, impregna as axilas mesmo sem esforço físico significativo. Corpo em prontidão eterna, vítimas do próprio cortisol.
Num canto da sala, um vaso com flores ressecadas. O gesto de trocar a água é adiado há dias. O odor levemente pútrido escapa, mistura-se ao perfume antigo e à poeira. O cuidado com o objeto denuncia resquícios de esperança, uma tentativa torpe de manter algum elo com a vida. As folhas secas, frágeis ao toque, estalam como pele cansada. O gesto de recolher pétalas do chão revela uma delicadeza quase compassiva, mas não há ternura suficiente para reverter a marcha do tempo. Os cacos de porcelana sob o tapete, lembrança do acidente involuntário semanas antes, permanecem ali. Evitados, contornados, nunca removidos. Pequenos monumentos do fracasso diário e da insistência silenciosa em seguir.
Os ruídos do prédio se tornam mais nítidos ao longo do dia, vozes emergindo do corredor, passos apressados subindo as escadas. O som de uma briga abafada no apartamento vizinho. O monólogo furioso de uma mulher, o choro de uma criança, portas batendo. O eco dessa violência doméstica penetra as paredes finas e reverbera dentro da sala. Um estremecimento involuntário nos músculos das costas, a respiração presa por alguns segundos, identificação silenciosa e involuntária com a tensão alheia. O desejo de fuga se mistura à compulsão de ouvir mais, como se o sofrimento alheio legitima-se o próprio. O corpo permanece imóvel, mas a mente se agita em labirintos reciclados.
À noite a luz se reduz até quase sumir. Restam canais de luminância oscilando vindos das ruas distantes, faróis de carros projetando sombras dançantes no teto. A rigidez dá lugar a lapsos de exaustão. O corpo se rende ao sofá, afundando-se no tecido áspero. O lampejo intermitente de uma tela de celular atualiza o ciclo: tentativas de contato não respondidas, mensagens apagadas antes de serem enviadas, a oscilação interminável entre esperança e desilusão crônica. O desejo de dormir não coincide com a possibilidade de apagar. O sono é recusado por uma mente inundada de roteiros paralelos, cenários apocalípticos, diálogos hipotéticos que nunca acontecerão. O corpo gira na superfície do sofá, buscando uma posição impossível de conforto. Entre o quase sono e