Felicidade de Baixa Voltagem

Felicidade de Baixa Voltagem

O Ibirapuera tem essa luz que parece sempre em trânsito, como se viesse de um lugar que não decide se é manhã ou tarde. O ar carrega um ruído contínuo de pneus ao longe, bicicletas cortando o chão, passos que não combinam entre si; e, por cima, as vozes das crianças sobem em pequenas ondas, quebram e retornam como se o parque respirasse por elas. Eu estou perto do gramado, a sombra ainda curta, sentindo a umidade que sobe da terra onde alguém derramou água para assentar a poeira. É ali que vejo um homem com dois filhos. Não vejo a palavra “solteiro” escrita em lugar nenhum, mas a ausência também é um dado: ele administra as duas órbitas infantis sem o alívio de outro adulto; faz isso com um corpo que aprendeu o ofício de dividir atenção. Ele não corre como elas; ele economiza. Há uma postura de quem se conserva para durar mais tempo, como se cada gesto tivesse um custo, e o custo fosse calculado no músculo e no relógio.

Os meninos se revezam em pedidos que não são exatamente pedidos: são impulsos em forma de frase. Um quer água, o outro quer mostrar uma folha, depois é o sapato que incomoda, depois é uma corrida que precisa de testemunha. O pai responde com uma prontidão que não é barulhenta. Há nele uma espécie de comunicação que se dá antes da fala: ele orienta com o queixo, recolhe com a mão aberta, puxa para perto não pela força mas pelo desenho do braço, que vira cerca, abrigo, limite. O corpo fala com mais sinceridade do que a boca; e eu percebo, como se fosse um detalhe técnico que atravessa a cena, que a maior parte do que acontece ali não depende de palavras. O olhar dele costura as duas crianças o tempo inteiro, e a postura vai mudando para caber nas duas alturas: dobra o joelho para ouvir uma frase curta, endireita para vigiar a trajetória do outro, volta a dobrar. Essa gramática silenciosa — mímica, olhar, postura — é a infraestrutura do cuidado em público, onde tudo é rápido e exposto.

Em certos momentos ele diz “calma” com uma voz baixa, mas a mão entrega a mensagem real: a palma voltada para baixo, descendo devagar, como se pudesse empurrar o ar para um lugar menos agitado. Numa outra hora, quando um deles se irrita porque perdeu a vez, o pai não corta a emoção com um “para com isso” seco; ele se aproxima, baixa o corpo e tenta nomear o que está acontecendo no rosto pequeno, como quem procura a peça certa num mecanismo delicado. Não é um sermão; é uma tentativa de sintonia. E o curioso é que, ao reconhecer o sentimento, ele não o aumenta; ele o contém. Ele parece saber — talvez por intuição, talvez por cansaço bem aprendido — que há um modo de conduzir uma criança sem humilhá-la: levar a sério a perturbação, entender o que doeu, sugerir uma saída que não seja o ataque. Isso não transforma o parque em paraíso; apenas reduz a voltagem do conflito para um nível suportável, onde ninguém precisa se quebrar para seguir adiante.

O que me emociona não é uma grande alegria, daquelas que pedem foto. É uma alegria pequena, quase doméstica, deslocada para o espaço público. Ela aparece em microgestos: quando a criança corre e volta para conferir se ainda é vista; quando o pai, mesmo cansado, sustenta o olhar de retorno como quem diz “estou aqui”. Há uma proximidade que não invade: ele deixa espaço para o impulso infantil, mas não abandona. Quando alguém passa perto demais, ele não recua como quem se encolhe do mundo; ele apenas ajusta o corpo e mantém o terreno, mantendo também as crianças dentro de um perímetro invisível. A distância entre eles é curta, de intimidade prática, e o contato visual é frequente, regulando a interação como um semáforo silencioso. Penso em como certos estilos de presença se reconhecem sem diagnóstico: há pessoas que existem de modo mais expressivo, com olhos que confirmam, mãos que pontuam, voz que muda para marcar cuidado; e há outras que se apagam para sobreviver. Esse homem parece pertencer ao primeiro grupo, não por exuberância, mas por necessidade: com dois filhos, a expressividade vira ferramenta de segurança.

E, no entanto, ele não é uma máquina sensível. Em um instante, enquanto prende o cabelo de uma das crianças ou ajusta a gola, sua mão livre vai à própria boca, roça a unha, volta rápido para o bolso, como se tivesse sido flagrada. É um sinal mínimo de tensão, uma descarga discreta. A cena não perde beleza com isso; pelo contrário, ganha verdade. Existe o que ele diz e existe o que o corpo confessa, e às vezes as duas coisas não se alinham. Enquanto garante “tá tudo bem”, o dedo procura uma borda para morder, a mão crispa por um segundo e depois se solta. O parque inteiro é um lugar onde pessoas performam normalidade, mas o corpo entrega as sobras: o medo de perder a criança de vista, o cálculo de dinheiro para o lanche, a preocupação com a hora, a lembrança de alguma ausência que não está ali mas pesa. Eu vejo a coragem não como bravata, e sim como continuidade: ele segue, apesar dessas pequenas irregularidades, sem transferir para os filhos o peso do que não cabe neles.

À medida que eles brincam, a afetividade ali não é enfeite; é combustível. Não é “carinho” como categoria moral, mas como força organizadora: o vínculo é o que permite que uma criança aceite um limite sem se sentir descartada, e é o que sustenta, no pai, a disciplina de não reagir com violência ao caos pequeno que duas infâncias produzem. Quando ele elogia um salto torto, quando celebra uma conquista desproporcional (“conseguiu!” dito como se fosse uma medalha), ele está colocando no corpo das crianças uma medida de valor que não depende de comparação com estranhos. A autoestima, nessas idades, parece se construir assim: por repetidas confirmações de que alguém confiável está olhando e gostando, mesmo quando corrige. E há um efeito colateral bonito: a criança que se sente acolhida tende a voltar ao mundo com mais confiança, como se o chão interno ficasse mais firme. E o que eu vejo nesse homem é um tipo de competência que não dá status, não vira currículo, não rende aplauso: a competência de administrar emoções em tempo real, em ambiente aberto, sem roteiro e sem plateia amiga. Não é perfeição; é cuidado sustentado. Ele é um pai só ali, mas o modo como ocupa o espaço cria uma sensação de dupla: como se o próprio corpo se dividisse em dois guardiões, um para cada criança, e ainda sobrasse um pouco para o mundo ao redor.

Quando eles finalmente param, suados, e sentam na grama, o pai abre uma garrafinha e oferece primeiro a quem mais chorou, como se soubesse que a sede também é uma continuação do descontrole. Um dos filhos encosta a cabeça no ombro dele por poucos segundos, sem cerimônia. Não é um abraço dramático; é um repouso breve, quase distraído. E eu penso que a felicidade de baixa voltagem é isso: não a eletricidade que incendeia, mas a que mantém acesa uma lâmpada pequena por muito tempo. Uma felicidade que não se anuncia, não se fotografa, não exige que a vida esteja resolvida; basta que, naquele pedaço de parque, um adulto consiga olhar duas crianças e dizer com o corpo inteiro, repetidas vezes, “vocês existem, eu estou aqui, vamos atravessar este dia”.