O Lugar Onde as Palavras Não Chegam

O Lugar Onde as Palavras Não Chegam

Tem sido dias decisivos.
Não apenas importantes, mas decisivos — como se algo invisível estivesse sendo selado dentro de mim,
um pacto silencioso entre o que eu fui e o que ainda não sei se serei.
Há uma espécie de tensão no ar, uma expectativa sem rosto.
Não há data marcada, não há anúncio,
e ainda assim sei que algo está prestes a mudar.
Talvez o mais terrível desses dias seja justamente isso:
a sensação de estar no limiar de um acontecimento que ainda não se revelou.

Tenho pensado muito sobre o que não sei dizer.
Sobre tudo aquilo que vive em mim,
mas que morre no instante em que tento transformar em linguagem.
Existem sentimentos que não se deixam traduzir.
São vastos demais, profundos demais, frágeis demais.
Ficam presos no meio do peito,
como se o coração fosse uma casa sem janelas,
e as palavras, visitantes que não encontram a porta.
É aí que eu me interrogo:
como suportar o que não se pode nomear?
Como não colocar em palavras o que insiste em pedir forma?

A linguagem é um consolo cruel.
Ela nos dá a ilusão de que entendemos o que sentimos.
Mas há dores que não cabem no dicionário,
há clarezas que se desfazem assim que tentamos dizê-las.
Talvez por isso eu tenha me calado tanto.
Não por falta do que dizer,
mas por respeito àquilo que só existe no silêncio.
Há verdades que se perdem quando ditas,
como se a palavra fosse uma lâmina que corta o mistério
e o faz sangrar até a banalidade.

Esses dias — esses dias que me atravessam como um inverno demorado —
têm me mostrado o quanto é árduo viver à altura do próprio destino.
Porque há um instante em que a vida exige resposta,
e o silêncio, por mais nobre que pareça, já não basta.
Decidir é sempre um ato de fé:
você dá um passo no escuro e torce para que o chão exista.
E é nesse passo que me encontro
entre o medo de cair e a urgência de seguir.

Talvez eu esteja mudando,
e talvez essa seja a parte mais assustadora:
não saber se a mudança é avanço ou ruína.
A mente pergunta, o corpo hesita,
e o tempo, impassível, segue adiante.
Ninguém avisa que amadurecer é um tipo de solidão.
Que crescer é aprender a caminhar sem testemunhas,
a conversar com o próprio abismo.
Tenho vivido dentro de mim como quem atravessa uma floresta sem mapa —
tateando, respirando, tentando decifrar os ruídos do escuro.

E nesse escuro há uma lucidez incômoda.
Uma consciência de que nada é garantido,
de que o futuro é um campo de probabilidades
e que, ainda assim, é preciso escolher.
Cada escolha é uma pequena morte:
o que não escolhemos continua a nos perseguir,
como um fantasma do que poderíamos ter sido.
Talvez seja isso que me angustia:
a consciência de que decidir é sempre perder alguma versão de mim mesmo.

Há dias em que tento escrever para aliviar o peso.
Mas as frases se desmancham,
como se recusassem ser cúmplices dessa confissão.
Percebo então que há experiências que só podem ser vividas — não contadas.
São feitas de silêncio, de respiro, de pausa.
É nesse intervalo que mora a verdade.
O que se diz é sempre sombra;
o essencial permanece oculto.

Eu queria poder explicar a alguém o que sinto
esse nó entre o medo e a esperança,
essa mistura de cansaço e lucidez.
Mas as palavras, quando chegam, chegam erradas.
Soam menores do que deveriam,
frágeis demais para carregar o peso do que me habita.
É por isso que tenho aprendido a respeitar o indizível.
A entender que há pensamentos que só fazem sentido enquanto são pensamento,
e não discurso.

Talvez crescer seja justamente aprender a conviver com o que não se pode explicar.
Aceitar que há sentimentos que não terão nome,
decisões que não terão justificativa,
e dores que não terão narrativa.
A vida não é feita para caber em frases.
A vida apenas acontece
bruta, silenciosa, indecifrável.

Então eu respiro fundo e aceito:
talvez o que estou vivendo não precise ser dito.
Talvez seja o bastante senti-lo.
Talvez as palavras não sejam o caminho,
mas o obstáculo.
Há momentos em que o silêncio é a forma mais pura de verdade.

E se hoje eu não consigo colocar em palavras o que me atravessa,
é porque, enfim, cheguei a um lugar onde o sentir é mais real que o dizer.
E talvez — só talvez
seja esse o verdadeiro sentido de viver dias decisivos:
tornar-se íntimo daquilo que o silêncio ainda guarda.