Pontes Invisíveis

Na fila do mercado, o gesto automático da mulher de olhar para o carrinho da outra. Os olhos não param nos produtos, mas nas embalagens que dizem mais do que compram. Uma comparação surge sem anúncio. O sorriso da caixa, mais jovem, arranha a pele madura. Não se nota o leve tensionar dos ombros, a costura que aperta debaixo do casaco velho. Os outros passam como manuais vivos do que deveria ter sido alcançado. Há sempre uma mulher mais firme, um homem que segura a mão da filha com mais paciência, uma voz menos cansada do que a própria. O olhar assombra vitrines. Um reflexo curto, desfocado. Na cafeteria, um grupo de colegas: risos, celulares abertos, telas reluzentes de fotos retocadas. Uma adolescente recosta na cadeira, pernas cruzadas, postura desenhada pela prática de ser vista. A mesa do canto assiste. Alguém finge ler, mas segue as conversas com uma atenção faminta. Os sorrisos parecem pertencer ao sumário de outra existência, onde o desalinho não invade o corpo nem cobre a fala. A colher bate na xícara, um ruído breve que denuncia ansiedade. A dúvida lateja por trás do rosto: por que não ali, não assim, não já? No pequeno apartamento há paisagem pela janela, mas não se olha para fora. A luz que entra arrasta consigo a ideia de que a vida corre adiante, em outros quartos, compartilhando conquistas invisíveis ao alcance das redes. Perfis digitais expõem triunfos editados, abraços cronometrados, refeições que jamais esfriam. O lampejo dos aparelhos cresce na penumbra do corredor, recorta o tempo como um editor cruel. Fracassos ficam de fora, mas eles pesam atrás das costelas. Sente-se a ausência do que não existe, montada sobre a presença concreta do que se tem. As vozes nos corredores do prédio trazem ecos de vidas em funcionamento. Um som de risada atravessa a porta, seguido por silêncios que dilatam o desconforto. A comparação se enreda nos detalhes: no tom da conversa, no rastro de perfume barato, no passo apressado de quem ainda acredita em destino. Os ruídos simples guardam mapas de futuros que nunca chegaram, ou chegaram tarde. Em cada parede um inventário de deveria-ter: cursos não feitos, viagens sonhadas, refeições para dois que se perderam em listas de mercado. No corredor do trabalho, um lampejo de inveja seco, quase imperceptível, quando se escuta sobre a promoção do colega. A resposta vem ensaiada, sorriso treinado, mas por dentro há o ajuste de contas com a própria história. Os retratos alheios aparecem ampliados, saturados, sua própria imagem encolhe, acinzentada. A entrega do corpo denuncia mais do que a fala: mãos que apertam papéis, olhos que distraem, o peso do fracasso camuflado em atenção excessiva. Entre conversas atravessadas, pulsa o fantasma do tempo desperdiçado. Na volta para casa, as luzes nas janelas de outras pessoas. Uma televisão azulada desenha sombras que contam narrativas desconhecidas. A espera por algo indefinido se infiltra no peito. Não é falta, mas uma presença difícil de nomear: a sensação de que a distância nunca será vencida. Comparar-se é uma ponte invisível que nunca chega ao outro lado. Sonhos sempre melhores, vidas sempre apartadas, como se o acúmulo dos dias dos outros apagasse silenciosamente os próprios. Os espelhos devolvem apenas contornos desfocados, mãos que tentam ajeitar cabelos sem convicção. Nada se ordena ali. O silêncio depois do jantar espalha no ar uma espécie de lembrança do que não foi e do que deveria brilhar. Os olhos evitam o próprio reflexo, mas buscam, obstinados e exaustos, por algum indício de que ainda seria possível atravessar.