O Texto

O Texto

Tem gente não ama você,
ama o reflexo daquilo que lhes serve.

São fiéis
não ao seu rosto,
mas à sombra
que dele recebem abrigo.

Enquanto você é ponte,
te atravessam com pressa;

quando vira ruína,
desviam o caminho.

A memória humana
é uma lâmina cega:
corta,
mas não conserva o fio.

Hoje te exaltam,
amanhã te chamam de peso.

E você, ainda tonto,
procura nos olhos delas
alguma centelha de gratidão

— não há.

Há apenas a fome.
A fome é o verdadeiro deus do homem.

Não espere lealdade
onde o instinto é o guia.

O mundo gira
com o eixo da utilidade:

quem não oferece,
desaparece.

Quem não serve,
some.

O amor?
Uma máscara
que o interesse veste
para parecer humano.

Aceite isso.
Sem drama,
sem rancor,
sem lágrima.

Aceite
como quem observa um corpo frio
e entende
que a vida já partiu.

A verdade não dói
porque é cruel;

dói
porque é lúcida.

Aprenda:
o sábio ajuda,
mas não se prende.

Estende a mão
— e guarda o coração.

Permite o uso,
mas não se deixa gastar.

O tolo oferece tudo
e implora lembrança;

o sábio oferece pouco
e permanece inteiro.

Não deseje fidelidade.
Deseje clareza.

Que fiquem
enquanto houver troca honesta,

e que partam
sem levar
o que é teu por dentro.

A ingratidão não é falha,
é natureza.

A sabedoria
é sobreviver a ela
sem se tornar igual.