Shekhinah

Shekhinah Aquela mesma sensacao estranha de algo que tá perto, como se nao fosse uma coisa que mora longe. Shekhinah quer dizer habitacao. E isso ja mexe comigo porque parece que a Presenca de Deus nao e so uma ideia alta no ceu. E um jeito de estar no mundo e no tempo e ate dentro do coracao. Nao como se fosse um pedaco separado de Deus. Mas como a proximidade dele aparecendo sem virar uma coisa pequena. Eu gosto de ler sobre tudo. Paganismo, ocultismo, historia, estoterismo, religiões, crenças, ouvir historias dos mais velhos, ate sobre superticoes me atrai, mas tem uma frase que eu fiquei repetindo na cabeca. Onde Israel vai a Shekhinah vai com eles. E eu entendo isso como um tipo de companhia no exilio. Nao e abandono. E uma ocultacao acompanhada. Tipo quando a luz apaga mas voce sente que alguem ainda esta no quarto. Nao porque faz barulho. Mas porque o ar nao fica morto. E ai tem uma parte da Tora que eu achei muito forte. Façam para Mim um santuario e Eu habitarei no meio deles. Eu gostei que nao fala no santuario como se fosse so predio. Fala no meio deles. Como se a morada fosse gente. Como se Deus morasse onde tem receptividade. Eu fico pensando que isso muda tudo porque nao vira uma busca por lugar especial. Vira uma pergunta sobre como eu estou por dentro. Eu tambem li que no Zohar a Shekhinah e chamada de Mae Inferior e que quando o povo age com retidao ela se une ao Rei. Eu tento imaginar isso como um jeito de dizer que existe uma parte da realidade que recebe e transmite. Como um reino que pega luz de cima e leva pra baixo. E ai dizem que quando tem ruptura etica ela entra em exilio. Isso me da um aperto porque parece que exilio nao e so geografia. E um estado. E quando tem mitzvot e intencao acontece reunificacao. Eu nao sei explicar isso com palavras de adulto. Mas eu sinto como se o mundo ficasse mais inteiro quando a gente faz o certo sem querer aplauso. Depois aparece uma historia de queda de centelhas. Luzes descem. vasos quebram. E a Shekhinah cai com as centelhas. E o ser humano pode elevar isso com estudo e atos e intencao. Eu imagino centelha como um pedacinho de sentido preso no meio do pesado. E cada ato correto seria tipo resgatar uma faquinha de luz no escuro. Isso faz eu pensar que o bem nao e so ser bonzinho. E uma coisa de conserto mesmo. Um tikkun. Um ajuste real. E ai eu chego numa parte que eu gostei mais porque nao tem cara de fantasia. Diz que a Shekhinah nao e atraida por tecnica secreta nem por palavra sussurrada em horario oculto. Ela se aproxima quando o espaco interior vira habitavel. Isso me acertou. Porque parece que a comunicacao com ela nao e falar muito. E virar um lugar onde a Presenca consegue repousar. E se tem ruido por dentro. orgulho inflado. violencia escondida contra mim ou contra outro. ela nao aparece. Nao como castigo. Mas porque nao tem recipiente. Como tentar por agua numa mao fechada. Ai entra o bitul que eu entendi como anular a centralidade do eu. Nao sumir como pessoa. Mas parar de agir como se eu fosse o dono de tudo. Enquanto eu me sinto fonte e controle e dono a Presenca fica velada. Quando eu me reconheco como canal e vaso e continuidade parece que abre espaco. E ai eu entendo humildade de um jeito novo. Nao como moralzinha. Mas como condicao do real. Um coracao duro nao recebe. Um coracao quebrado do jeito certo vira casa. Nao quebrado de drama. Quebrado de verdade. A Shekhinah responde a verdade interior. Nao a performance espiritual. Se minha boca fala uma coisa e meu coracao sustenta outra vira separacao. Se eu penso uma coisa e ajo o contrario eu sinto uma rachadura dentro. E ai eu li uma ideia que eu achei bem bonita e bem exigente. pensamento palavra e acao alinhados. Quando isso encaixa eu viro inteiro e a Shekhinah se revela sem eu precisar puxar. E eu gostei dessa frase por dentro. Nao se invoca a Presenca. Remove se o que oculta. O silencio entra como linguagem. Nao silencio de vazio. Silencio de escuta. E ai eu comeco a reparar em sutilezas. Um peso no peito antes de eu fazer uma coisa errada. Uma clareza rapida depois de eu escolher um caminho justo. Uma paz que aparece do nada depois de eu fazer um bem sem ninguem ver. Eu acho que quem procura voz alta perde isso. E quem aprende a escutar por dentro comeca a receber resposta sem barulho. A Shekhinah nao grita. Ela insinua. E ai eu vejo que etica e o idioma preferido dela. Justica compaixao fidelidade a verdade nao sao so resultado da Presenca. Sao portais. Cada ato certo sem interesse pessoal aproxima. Cada injustica mesmo pequena empurra pro exilio. Isso me deixa com medo e me deixa firme. Porque significa que o cotidiano importa de verdade. Cozinha. trabalho. sala de aula. amizade. tudo isso pode ser lugar de habitacao. Eu tambem gostei que o corpo entra nisso. A Shekhinah nao repousa onde o corpo e desprezado nem onde o corpo vira idolo. Parece que o corpo tem que ser instrumento sagrado. Comer com consciencia. descansar direito. tratar o tempo com respeito. E ai aparece o Shabat como um estado de receptividade. Como parar de atacar o tempo. Como deixar de conquistar e comecar a receber. Eu nao sei se eu consigo viver isso sempre mas eu entendo a ideia. Quando a gente para de bater no mundo o mundo parece responder. E tem uma parte delicada sobre dor verdadeira. Nao autopiedade. Mas perceber a distancia entre o que eu sou e o que eu podia ser. E chorar de um jeito quieto. Isso parece atrair a Shekhinah porque dissolve camadas densas do ego. E eu achei lindo pensar que ela se aproxima de quem nao exige. De quem nao faz chantagem espiritual. De quem so fica sincero. No fim a comunicacao com a Shekhinah parece virar isso. Viver como resposta. Nao ficar perguntando o que eu vou ganhar. Mas o que e pedido de mim agora. Quando a vida vira resposta ao bem a Shekhinah deixa de ser uma coisa que eu corro atras. Ela vira uma coisa que eu percebo. Como se ela sempre tivesse ali e o trabalho fosse so desvelar aqui embaixo. E se eu tiver que falar o segredo inteiro com palavras simples eu falaria assim. A Shekhinah nao se alcanca. Ela se revela quando a alma vira casa.