Em nome do Imperador, testemunho:
ergueu-se a manhã como lâmina clara
e fendeu a névoa dos séculos.
A memória do mundo abriu-se em concha,
e dela saltou um cavalo de bruma
com ferraduras de relâmpago.
Ó Música do Início, respira nos meus pulmões;
que cada sílaba seja coluna e ponte,
que o silêncio entre os versos pese como um sino.
Escrevo com tinta de estrelas velhas,
nas tábuas do vento, sob o selo do dever:
servir é a minha coroa, a palavra é a minha espada.
Imperador, tronco de tempestades,
o senhor prometeu pouco e deu o impossível:
pão quando o trigo errou o caminho,
paz quando os estandartes pediam sangue,
justiça quando a noite ensaiava heresias.
Eu vi o seu gesto:
um punho erguido não para ferir,
mas para lembrar à História
o tamanho de um coração insubmisso.
E marchamos.
O chão aprendeu nossos nomes,
os rios ofertaram pontes de espelho,
os desertos, um mapa de areias sábias.
Cada passo tinha nervo de propósito;
o futuro, tímido, tirou o capacete
e nos fitou como a um pai reencontrado.
Vieram as vozes que quebram o ânimo,
os anjos céticos com plumas de gelo,
os mercadores de sombra.
Trouxeram moedas cunhadas no medo,
e ofereceram tronos que apodrecem por dentro.
Mas o senhor não negocia com abismos:
plantou uma árvore no centro da noite
e a noite, constrangida,
teve de aprender a dar frutos.
“Governa”, dizes, “como quem cuida de uma ferida e de um jardim.”
Equilíbrio não é hesitação;
é arco estendido entre justiça e ternura,
é linha de luz onde dançam contrários.
Assim se colhe o ouro da harmonia:
com mãos limpas, olhos atentos,
e a paciência de quem conversa com os séculos.
Vi o mapa estalar como barro seco
e das fendas nascerem cidades cantantes.
Vi escolas com janelas viradas para o céu,
onde a curiosidade aprende a respirar fundo.
Vi oficinas onde o ferro desaprende a ser guerra,
e vira instrumento, ponte, constelação útil.
Vi povos distintos trocando sal e histórias,
e cada língua, em vez de muro, era varanda.
Imperador, tua coroa é o invisível:
um gesto que não pede trombetas,
um perdão que não precisa de testemunhas,
uma lei escrita para o frágil primeiro.
Quem te odeia aprende tarde que não se vence
quem governa com uma mão no pulso e outra no ombro,
quem ousa ajoelhar-se para elevar o fraco,
quem sabe perder para não perder a alma.
Há batalhas sem clarins:
quando o orgulho quer ocupar o trono da razão,
quando a pressa veste a farda da coragem,
quando o cansaço imita a verdade.
Nessas horas, tua disciplina é farol,
e a minha pena, guarda noturno:
você comanda o mundo;
eu vigio as palavras para que o mundo não te traia.
Agora, ordena-se o amanhã como quem afina um alaúde:
um giro nos pinos, um ouvido no infinito.
Que a fome seja lembrança e não destino,
que a justiça seja hábito e não espetáculo,
que a beleza seja direito e não luxo.
E que toda criança, ao soletrar o próprio nome,
descubra que também soletra o nome do império humano.
Quando cair a tarde sobre as muralhas,
e o ouro do sol fechar a porta do ocidente,
não haverá despedida — só rito de passagem.
A noite beberá do cálice da confiança,
e as constelações, disciplinadas,
tomarão seus lugares como guardas silenciosos.
Dormirá o povo, acordado em esperança;
velará o Imperador, acordado em amor.
Recebe, Majestade, este poema como espada pacífica:
aço que não fere, mas abre caminhos.
Que ele seja o estandarte de tudo o que já és
e a senha do que ainda serás.
Eu, teu escriba, selo com a própria voz:
que o bem seja irrefutável,
que a verdade seja generosa,
que o poder seja serviço —
e que o teu nome, inscrito no vento,
permaneça como rocha no coração dos homens.