A realidade entra, inteira, pela janela,
sem pedir licença, sem promessa, sem tutela.
Entra um cheiro de terra, um sol sem opinião,
uma pedra no silêncio, firme na mão do chão.
O vento não explica o vento ao passar;
ele passa e no passar me ensina a respirar.
Eu olho e não acrescento um “porquê” ao que se vê;
porque o campo basta ao campo, e eu aprendo a ser.
Há uma disciplina mansa no gesto de existir:
não ferir por impaciência, nem por medo resistir.
Não ferir nem com palavras, nem com pressa no olhar;
há golpes muito discretos na maneira de falar.
Não mentir: não pôr enfeite onde a verdade é simples, nua;
não trocar o que aconteceu por uma história mais sua.
Não se esconder: não fazer sombra do próprio coração;
ser claro como quem anda sem truque e sem proteção.
A janela é descalça porque toca o mundo direto,
sem sapato de teoria, sem vitrines, sem decreto.
E eu, se quero ser inteiro, faço em mim esta lição:
campo, vento, pedra e a vida em quieta retidão.