Resenha: Os Irmãos Karamazov de Fiódor Dostoiévski

Resenha: Os Irmãos Karamazov de Fiódor Dostoiévski O maior livro que já li, depois da Torah kkkkkkkkk. Que merda foi essa? Muito dificil de compreender, Fiodor entrou pra minha lista de melhores escritores com certeza. Os Irmãos Karamázov é grande por fora mas é maior por dentro. Quanto mais eu penso mais ele cresce. Não é um livro que termina quando acaba. Ele continua fazendo barulho dentro da cabeça como se tivesse deixado portas abertas. A família Karamázov não parece só uma família. Parece um experimento quebrado. Tudo começa no pai. Fyodor Pavlovitch não é só um homem ruim. Ele é uma bagunça viva. Ele ri do que devia respeitar. Ele provoca para sentir poder. Ele trata tudo como jogo e negócio. Não existe cuidado nele. Nem com os filhos. Nem com Deus. Nem com o próprio corpo. Ele é como se fosse a prova de que quando alguém vive só de impulso acaba espalhando sujeira em tudo que toca. Não é um vilão elegante. É pior. É vulgar. E isso faz mais estrago. Os filhos nascem já tortos por causa disso. O Dmitri parece carregar o pai no sangue. Ele sente tudo demais. Ele quer ser honrado mas não consegue segurar a própria vontade. Ele vive como se estivesse sempre devendo algo ao mundo. Dinheiro amor perdão reconhecimento. Ele explode. Ele promete. Ele se arrepende. Depois explode de novo. A herança que ele briga para receber parece mais emocional do que material. É como se ele quisesse provar que existe. Que não foi esquecido. Que tem direito a alguma coisa. Ele ama de um jeito que machuca. Machuca ele e machuca os outros. A relação dele com Katerina Ivanovna é cheia de orgulho e dívida. Ela ama como quem exige. Como se o amor fosse um contrato moral. Ela se sacrifica mas cobra. Ela se humilha mas guarda memória. Existe nela uma necessidade de ser justa que vira dureza. Já a Grushenka é diferente. Ela parece leve mas não é. Ela aprendeu a usar o desejo como defesa. Ela brinca porque já foi ferida. Ela provoca porque tem medo de ser descartada. Quando ela se permite sentir de verdade o livro fica mais humano. Ela não é só tentação. Ela é alguém cansada de ser usada. O Ivan é o mais perigoso e o mais triste. Ele pensa com seriedade. Ele não aceita respostas fáceis. Ele olha para o sofrimento das crianças e diz que não aceita um mundo que precise disso para funcionar. Eu entendo ele. Ele não quer destruir. Ele quer justiça. Mas o pensamento dele vai ficando frio. Ele começa a cortar o chão onde pisa. A história do Grande Inquisidor é assustadora porque parece possível. A ideia de que as pessoas preferem segurança à liberdade. Que preferem ordem à verdade. Ivan não manda ninguém matar. Mas as ideias dele caminham sozinhas. Isso é o que mais assusta. O Alyosha é o oposto sem ser bobo. Ele não ignora o mal. Ele vê tudo. Mas escolhe não endurecer. Ele aprende com o starets Zossima que ninguém sofre sozinho. Que a culpa é compartilhada. Que cada um participa do mundo que existe. Quando Zossima morre e o corpo se decompõe rápido parece que a fé dele é testada na pior forma possível. Alyosha cai. Mas ele não vira cínico. Ele volta para o mundo. Ele escuta. Ele fica perto. Ele não salva ninguém sozinho mas impede que as pessoas se percam totalmente. O Smerdyakov é o silêncio que aprende a pensar. Ele cresce no desprezo. Ele observa. Ele entende. Ele pega as ideias do Ivan e transforma em ato. Ele não é só um assassino. Ele é a prova de que o ressentimento pode ficar inteligente. Ele mata sem barulho. Depois devolve o dinheiro como se isso resolvesse algo. E se mata deixando a culpa espalhada. Ele não quer justiça. Ele quer provar que tudo é vazio. Os outros personagens não são fundo. O capitão Snegiryov e o menino Ilusha mostram como a dor dos adultos cai sobre quem não tem defesa. Grigory e Marfa são simples mas ainda sabem sentir horror diante do mal. Rakitin usa o pensamento como cinismo. Madame Hohlakov vive num teatro emocional. Lise parece uma criança brincando com o próprio sofrimento. Kolya Krasotkin mostra como a inteligência sem cuidado pode virar crueldade. O julgamento é difícil de ler. Parece um palco. Todo mundo quer brilhar. A verdade vira argumento. A justiça vira disputa. Dmitri é condenado não só pelo que fez mas pelo que parece ser. Isso me deixou inquieto. Dá a sensação de que ninguém está realmente a salvo quando a imagem pesa mais do que a alma. No fim o que mais ficou foram os meninos. A fala do Alyosha para eles não parece discurso. Parece promessa. A ideia de que lembrar do bem pode salvar alguma coisa no futuro. Não é conforto barato. É responsabilidade. Eu acho que esse livro quer que a gente olhe para dentro e escolha. Não entre Deus e razão. Mas entre endurecer ou continuar humano. E isso é mais difícil do que parece.