Quando a Fuga Pede o Nome de Ódio

Quando a Fuga Pede o Nome de Ódio

O tal ódio, que muitas vezes nem chega a tanto, é uma saída fácil porque ele simplifica. Pega uma pessoa inteira, com a bagunça inteira, e reduz a um alvo. Eu não consigo fazer isso com você. Não por nobreza. Mas porque seria desonesto comigo mesmo, e essa é uma mentira que não me cabe mais.

Eu não tenho de te odiar. Teria motivos se você tivesse me empurrado ao erro de propósito. Mas mesmo aí, antes de te odiar, eu me odiaria primeiro. Do jeito que a mente faz quando quer punir alguém e não tem coragem de admitir o próprio apego. A raiva, nesses casos, é só uma máscara para a vergonha de ainda amar e ter tropeçado.

O amor. A palavra soa grande, eu sei. É por isso que incomoda. Porque ela não cabe na contabilidade dos danos. Porque ela é mais antiga do que o último diálogo e mais profunda do que a última falta. O sentimento mais puro sempre foi maior do que nossos erros, e isso é o que me impede de te transformar num vilão confortável.

Só que tem um detalhe que corta: o teu erro foi teu, não meu. Eu vivi por muito tempo o peso dele como se fosse meu. Carreguei a consequência como quem assume uma culpa para manter a história em pé. E até hoje você não reconhece. Não reconhece, ou reconhece e não suporta olhar.

Aí você me pede para te odiar.

Pensa nessa cena com calma. Uma pessoa pedindo o próprio julgamento, quase implorando por uma sentença, como se o ódio do outro pudesse organizar a casa por dentro. Como se fosse mais fácil ser odiado do que ser visto. Porque o ódio, pelo menos, tem formato. O amor exige responsabilidade. Exige presença. Exige a coragem de permanecer no mesmo lugar quando tudo em você quer fugir.

Talvez você se sinta mais confortável se eu te odiasse, porque aí ganharia uma explicação simples para a sua saída. Não teria de encarar a sua fraqueza. Só a minha suposta crueldade. E então sua mente respira: "Ele me odeia, então eu posso ir." É um truque antigo. Funciona porque a fuga sempre vem com um argumento bonito. Você não sai correndo. Você sai contando uma história que torna a corrida justificável.

Só que eu não consigo te dar esse presente.

Numa tarde em que eu percebi que estava carregando um peso que não era meu, fiquei parado no mesmo lugar por uns vinte minutos sem conseguir nomear o que estava sentindo. Não era tristeza. Era algo mais quieto. O reconhecimento de que eu havia construído uma explicação para o outro para não ter de olhar para o que fiz com a minha parte.

O que eu sinto agora não tem beleza nenhuma: é cansaço. Um cansaço limpo. Não o cansaço dramático que vira frase de efeito. É o cansaço de quem percebe que revirar os erros do outro na cabeça não diminui os seus. Que transformar a memória numa sala de julgamento não ressuscita o que foi perdido, só prolonga a agonia. Você não devolve o tempo colocando o dedo na ferida. Você só aprende o formato dela.

Não sei qual fraqueza você esteve enfrentando. Não tenho como fingir que sei. Pode ser medo de assumir. Pode ser orgulho, ou uma covardia bem treinada que aprendeu a se vestir de autopreservação. Pode ser só a incapacidade de sustentar a própria imagem quando ela racha. Mas sei uma coisa: fugir dói mais do que encarar. Dói menos hoje. Cobra com juros amanhã. E quando cobra, cobra em silêncio, de madrugada, no intervalo entre uma mensagem não enviada e a vontade de desaparecer.

Perder alguém que se ama porque é difícil lidar consigo mesmo é uma realidade grotesca. É como derrubar a casa para não encarar o espelho do quarto. Eu estou aqui, do lado de fora, vendo a poeira subir, tentando decidir se grito, se espero, se vou embora, ou se aceito que algumas pessoas preferem o incêndio à conversa.

O que posso te oferecer é isso, sem pose: não vou te odiar para facilitar a tua fuga. Também não vou me odiar para aliviar a tua culpa. Vou chamar as coisas pelo nome, mesmo que isso me deixe sem abrigo por alguns dias. Porque a verdade tem uma brutalidade útil. Ela não é confortável, mas é sólida. E é só no sólido que a gente pisa sem afundar.

Toda vez que lembro, me pego pensando: será que você quer mesmo que eu te odeie ou você quer que eu pare de exigir que sejamos adultos diante do que fazemos?