O ódio é uma saída fácil porque ele simplifica. Ele pega uma pessoa inteira, com a bagunça inteira, e reduz a um alvo. E eu não consigo fazer isso com você. Não porque eu seja nobre, mas porque eu seria desonesto comigo mesmo.
Eu não tenho de odiar você. Eu teria motivos se você tivesse me empurrado para o erro de propósito, como já acontece em certas histórias humanas que se repetem com outras faces e o mesmo roteiro. Mas mesmo aí, antes de te odiar, eu me odiaria primeiro, do jeito que a mente faz quando quer punir alguém e não tem coragem de admitir o próprio apego.
As vezes a raiva é só uma máscara para a vergonha de ainda amar e ter tropeçado.
A palavra soa grande, eu sei, mas é exatamente por isso que incomoda. Porque ela não cabe na contabilidade dos danos. Porque ela é mais antiga do que o último diálogo e mais profunda do que a última falta. O sentimento mais puro sempre foi maior do que nossos erros e isso é o que me impede de te transformar num vilão confortável. Só que tem um detalhe que corta: o teu erro foi teu e não meu. Eu vivi por muito tempo o peso dele como se fosse meu. Eu carreguei a consequência como quem assume uma culpa para manter a história em pé. E até hoje você não reconhece. Não reconhece ou reconhece e não suporta olhar.
Aí você me pede para te odiar. Pensa nessa cena com calma. Uma pessoa pedindo o próprio julgamento, quase implorando por uma sentença, como se o ódio do outro pudesse organizar a casa por dentro. Como se fosse mais fácil ser odiado do que ser visto e ouvido. Porque o ódio, pelo menos, tem formato. O amor exige responsabilidade. Exige presença. Exige a coragem de permanecer no mesmo lugar quando tudo em você quer fugir.
Talvez você se sinta mais confortável se eu te odiasse porque aí você ganha uma explicação simples para a sua saída. Você não teria de encarar a sua fraqueza, só a minha “crueldade”. E aí a sua mente respira: “Ele me odeia, então eu posso ir.” É um truque antigo. E funciona. Funciona porque a fuga sempre vem com um argumento bonito. Escapismo é isso: você não sai correndo, você sai contando uma história que torna a corrida justificável.
Só que eu não consigo te dar esse presente.
Eu olho para isso e sinto uma coisa que não tem beleza nenhuma: o cansaço. Um cansaço limpo. Não é aquele cansaço dramático que vira postagem e frase de efeito. É o cansaço de quem percebe que ficar rompendo na cabeça os erros do outro não diminui os nossos. E mais: que transformar a memória numa sala de julgamento não ressuscita o que foi perdido, só prolonga a agonia. Você não devolve o tempo colocando o dedo na ferida. Você só aprende o formato dela.
Eu não sei qual fraqueza estive lidando nesses últimos tempos. Não tenho como fingir que sei. Pode ser medo de assumir, pode ser orgulho, pode ser uma covardia bem treinada que aprendeu a se vestir de “autopreservação”. Pode ser só a incapacidade de sustentar a própria imagem quando ela racha. Mas eu sei uma coisa com uma certeza: fugir e fingir a realidade dói mais do que encará-la de frente. Dói menos hoje, mas cobra com juros amanhã. E quando cobra, cobra em silêncio, de madrugada, no intervalo entre uma mensagem não enviada e a vontade de desaparecer.
Perder alguém que se ama porque é difícil lidar consigo mesmo é uma realidade grotesca. É como derrubar a casa para não encarar o espelho do quarto. E eu estou aqui, do lado de fora, vendo a poeira subir, tentando decidir se eu grito, se eu espero, se eu vou embora ou se eu aceito que algumas pessoas preferem o incêndio à conversa.
O que eu consigo te oferecer é isso, sem pose: eu não vou te odiar para facilitar a tua fuga. Eu também não vou me odiar para aliviar a tua culpa. Eu vou chamar as coisas pelo nome, mesmo que isso me deixe sem abrigo por alguns dias. Porque no fim, a verdade tem uma brutalidade útil: ela não é confortável, mas ela é sólida, e um dia você compreende, é só no sólido que a gente pisa sem afundar.
Agora me diz, sem defesa e sem teatro: você quer mesmo que eu te odeie… ou você quer que eu pare de exigir que você seja adulto consigo e comigo diante do que fez?
