Memória, Culpa e o Atalho

Memória, Culpa e o Atalho

Eu me lembro de um dia em que o prédio parecia estar sempre dois passos atrás do próprio fôlego, e nada estava, de fato, “pegando fogo”, mas tudo era tratado como se estivesse - como se a vida pública tivesse virado uma sala cheia de alarmes sensíveis demais, daqueles que disparam com vapor de café. E, nesse ruído contínuo, uma nova medida “provisória” foi anunciada com a solenidade de quem entrega uma comenda, acompanhada de palavras tão grandes que pareciam cobrir qualquer pergunta. O efeito foi imediato: quando a promessa vem embrulhada em proteção, a maioria das pessoas sente vergonha de pedir detalhes, como se pedir detalhes fosse uma forma de egoísmo. Eu vi isso acontecer no rosto das pessoas: aquele pequeno recuo, aquele gesto de concordância antes mesmo de entender, como se o corpo dissesse: “melhor não ser o chato num momento desses”.

Só que eu estava numa sala menor, onde o que importava não era a frase bonita, mas o que aconteceria na manhã seguinte. Havia ali um tipo específico de silêncio - não o silêncio do medo, mas o silêncio de quem sabe que o erro mais caro não é o erro que acontece; é o erro que se repete com um nome novo. E o que me chamou atenção foi a forma como a decisão tinha sido tomada, porque ela não tinha trilha, não tinha carimbo, não tinha um “por quê” que pudesse ser testado depois, não tinha um “até quando” que pudesse encerrar sozinho, e não tinha uma lista clara de custos e danos possíveis. Aquilo era tudo, menos uma política. Era mais um atalho - como uma ponte improvisada que alguém constrói para atravessar um buraco, mas que, se ninguém exigir a reconstrução da estrada, acaba virando a própria estrada. E um dia você já não se lembra do buraco: só lembra que sempre atravessou por ali e que é perigoso questionar.

Naquele dia, o inevitável aconteceu - não porque alguém fosse mal, mas porque a pressa tem uma inteligência burra, mas burra mesmo. Uma inteligência que funciona para agir, mas falha para prever. Teve um efeito colateral: pequeno o bastante para ser negado e grande o bastante para ferir gente real. E, quando o efeito apareceu, o instinto mais antigo da organização se levantou como um animal acordando: aquele instinto de procurar um corpo para colocar no chão e dizer “foi isso”. Porque, quando você oferece um culpado, você compra alívio; e o alívio é uma moeda tentadora, principalmente quando o público está inquieto, a imprensa está com fome e as lideranças querem encerrar o assunto antes que ele crie raízes.

Eu vi o começo desse cacareco se armando com uma eficiência quase sublime: alguém sugerindo que “precisávamos dar um exemplo”, alguém dizendo que “a confiança depende de responsabilização”, alguém lembrando que “não podemos parecer fracos”. E, em poucos minutos, a conversa estava escorregando para o tipo de justiça que não corrige o sistema - apenas alimenta o apetite do tribunal invisível. Logo me veio um pensamento como uma faca: o problema não é errar; o problema é errar em um sistema que transforma o erro em culpa eterna. Porque a culpa eterna cria medo, e o medo cria mentira, e a mentira cria repetição, e a repetição cria desastre.

Foi quando alguém, do outro lado da mesa, fez uma pergunta que mudou o ar da sala sem levantar a voz. Uma pergunta simples e brutalmente prática, do tipo que corta o encanto sem humilhar ninguém: onde estava o registro do processo? Onde estavam os critérios que definiram a medida? Onde estavam as alternativas descartadas? Onde estava o responsável nominal e, sobretudo, onde estava a tal “cláusula de desativação”? Nunca existiu a porra da cláusula; a gente inventou isso pra demonstrar alguma eficiência. Se não havia desativação prevista, então não era provisório. E a sala ficou alguns segundos em suspensão, como se todo mundo percebesse, ao mesmo tempo, que estava prestes a sacrificar uma pessoa pra não olhar para um buraco no chão. Eu me envolvi na trama sem nem ler o roteiro - aliás, nem fui contratado para estar ali.

Eu lembro de ter sentido um desconforto, porque naquele instante ficou evidente que a nossa cultura estava tentando resolver um problema estrutural com uma solução emocional, como se fosse possível consertar uma falha de engenharia com uma punição exemplar. E alguém, então, disse algo que parecia pequeno, mas carregava um mundo dentro: o objetivo não era “lembrar para sempre quem foi quem”, e sim construir um sistema em que o que fica para sempre é o aprendizado, não o estigma. A partir dali, a conversa virou - não para proteger reputações, mas para proteger o futuro.

O que fizeram em seguida foi quase anticlimático - e exatamente por isso foi civilizatório - porque não houve caça: houve revisão. Não houve linchamento: houve trilha. Não houve desculpa genérica: houve contabilidade. E começamos pelo que sempre evita repetição: transformamos o evento num relatório público interno, com linguagem humana e critérios técnicos, registrando o que aconteceu em sequência, quais hipóteses guiavam a decisão, quais pontos estavam cegos, quais sinais foram ignorados, quais incentivos empurraram a pressa e quais controles falharam - não por maldade, mas por inexistência. E fizemos questão de separar duas coisas que as organizações confundem por preguiça moral: responsabilidade e culpa. Porque responsabilidade é obrigação de reparar e ajustar; culpa, quando vira marca, só ensina as pessoas a esconder.

Houve, sim, consequência - mas consequência do tipo que melhora o sistema, em vez de apenas satisfazer o público. A consequência mais séria foi estrutural: exigimos que qualquer medida emergencial passasse a nascer com data de expiração, com critérios verificáveis de renovação, com “bula” de custos e externalidades, com um responsável nominal e com uma trilha de decisão que não pudesse ser apagada depois. E também criamos um encontro periódico em que decisões passadas eram revisitadas não para punir, mas para aprender. Ali, a memória não era uma arma; era um freio. E um freio só presta quando não depende do humor de quem está dirigindo.

O mais interessante foi ver a mudança de comportamento aparecer sem que ninguém fizesse discurso. Porque, quando a trilha existe, a pressa perde charme. Quando a cláusula de desativação existe, o provisório para de virar vício. Quando a transparência de custo existe, a retórica diminui. E quando o erro deixa de ser sentença social, as pessoas param de mentir e começam a avisar cedo. E avisar cedo é o que salva vidas e instituições. Foi aí que eu entendi a dinâmica: memória pública não é sobre colecionar culpados como troféus; é sobre impedir que o poder, a pressa e a vaidade usem o esquecimento como solvente.

O que ficou, no fim, não foi o nome de ninguém, porque nome é espuma e o tempo leva. E nem deveria ficar, já que a finalidade não é tatuar pessoas: é treinar estruturas. A memória que importa é a que guarda padrões, não rostos - guarda a forma como a exceção tentou virar norma, como a urgência tentou comprar atalho, como o medo tentou inverter o ônus da prova e como a cultura quase preferiu um bode expiatório a uma correção real. Porque é esse registro que dá à comunidade algo melhor do que vingança: imunidade.

E, se eu tiver que resumir a solução escondida dentro da história, sem cair no moralismo que você não quer, eu diria assim: o sistema precisa lembrar do que aconteceu com rigor e esquecer quem errou com humanidade. Porque lembrar do que aconteceu é a única forma de não repetir, e esquecer quem errou é a única forma de manter as pessoas honestas o suficiente para revelar o erro antes que ele cresça. Quando você consegue essa combinação, você não cria uma sociedade sem falhas; você cria uma sociedade forte, que falha sem se destruir - e isso é a definição mais prática, e o anseio, de qualquer ser humano que almeja evoluir.