Vaso Nutriente

Vaso Nutriente

Existe um caos que não é bagunça.
Ele acontece quando a mente perde forma.
Você pensa muito e entende pouco.
Você sente muito e nomeia quase nada.
A vida interna vira uma névoa.
E a névoa tem um efeito cruel.
Ela faz qualquer coisa parecer maior do que é.
Ela faz qualquer decisão parecer urgente.
Ela faz qualquer relação parecer um campo minado.
Esse caos não é sinal de profundidade.
É sinal de confusão.

O primeiro passo de evolução humana é perceber que sair desse estado não exige uma explicação melhor.
Exige um recipiente.
Existe uma diferença entre algo confuso e algo real.
O confuso é vapor.
O real já tem substância.
Quando isso ganha corpo você ainda não está resolvido.
Mas você já saiu da névoa.

Muita gente tenta sair da confusão expandindo.
Fala mais.
Consome mais.
Pesquisa mais.
Isso dá sensação de movimento.
Mas expansão sem forma vira inundação.
A inundação não alimenta.
Ela arrasta.

Bênção não é prêmio.
Bênção é inteligência que nutre.
Ela aparece quando existe um começo verdadeiro dentro de você.
Esse começo se chama sabedoria.
Não como erudição.
Mas como capacidade de organizar o que você vive.

A bênção pede um vaso.
O fluxo sozinho não resolve.
O que resolve é a relação entre fluxo e forma.
Existe contração.
Existe expansão.
Nesse pulso nasce o recipiente.

Contração não é repressão.
É limite consciente.
É sustentar um instante antes de reagir.
Sem limite você vira refém de qualquer impulso.

Quando o caos subir você reduz o volume do mundo.
Você volta para o corpo.
Você cria espaço.
Sem espaço você não escolhe.

Depois você dá nome ao que tem substância.
Uma frase curta.
Verdadeira.
Essa frase vira borda.
Ela transforma névoa em chão.

Então vem a expansão certa.
Não para escapar.
Para nutrir.
O ato precisa ter o mesmo desenho da frase.
Isso é coerência.
Isso é bênção.

Restrição não é inimiga do prazer.
É o que impede que o prazer vire compulsão.

Com o tempo você deixa de viver inflado.
E deixa de viver ausente.
Você aprende a estar presente sem dominar.
E a recuar sem desaparecer.

A vida interna é um trabalho em andamento.
Sem moralismo.
Com ajuste constante.
Menos reatividade.
Mais direção.

A evolução aqui é virar alguém mais habitável.
Alguém com casa por dentro.
Porque quando existe casa o essencial aparece com calma.
Essa calma não é anestesia.
É forma.
É recipiente.
É a inteligência nutritiva funcionando.