A política internacional tem um vício elegante. Ela finge que é sobre valores quando quase sempre é sobre custos. Valores são a música. Custos são a partitura. Quem aprende a ler a partitura para de se irritar com a música. E, por um milagre raro, começa a resolver coisas.
Repara no padrão que atravessa décadas e atravessou também aquele inverno recente em que o mundo discutiu gelo como se fosse cláusula e discutiu cláusulas como se fossem gelo.
Quando uma potência fala em “segurança”, ela está pedindo liberdade de ação.
Quando um aliado fala em “parceria”, ele está pedindo previsibilidade.
Quando um governo fala em “soberania”, muitas vezes está pedindo silêncio.
E quando uma multidão fala em “pão”, ela está pedindo tempo para continuar humana.
O resto é vocabulário de cerimônia.
A diplomacia não é um debate. É uma engenharia de compromissos entre vaidades armadas. Se você entra nela com a alma de pregador, você vira instrumento de quem tem alma de contador. É por isso que a primeira solução é mental. Pare de confundir moral com método. Moral é o norte. Método é a estrada. Quem só tem norte vira perdido. Quem só tem estrada vira perigoso. O adulto na sala tem os dois. Ele não canta virtudes. Ele desenha mecanismos.
Um. Nunca negocie com um país. Negocie com as facções dentro dele. Todo Estado tem seus partidos invisíveis. Um governo é apenas a face oficial de uma coalizão. Se você oferece um acordo que envergonha o grupo que assina, ele derruba o próprio acordo para se salvar. Isso não é “traição”. É autodefesa política. Então o trabalho sério é construir um acordo que permita que o assinante volte para casa e diga “eu venci”. Mesmo que ninguém tenha vencido. A paz não nasce da verdade. Ela nasce da possibilidade de cada lado preservar sua narrativa mínima.
Dois. Dê saída honrosa antes de dar punição. Punição sem saída produz teimosia. Saída sem custo produz abuso. O ponto é combinar as duas coisas no mesmo pacote. Um corredor de retorno com uma porta que fecha. Você anuncia a porta. Você mantém o corredor aberto. A ameaça funciona porque existe um caminho para evitá-la. Sem caminho a ameaça vira destino. E destino não negocia.
Três. Separe o que é princípio do que é ficha de troca. Princípio é o que você não vende. Ficha é o que você troca com prazer. O erro clássico de diplomata jovem é transformar fichas em princípios para parecer firme. O erro clássico de diplomata velho é transformar princípios em fichas para parecer prático. O que resolve é a disciplina de declarar poucas coisas como sagradas. E proteger essas poucas com rigor. O sagrado em excesso desvaloriza o próprio sagrado. Ninguém leva a sério um altar inflável.
Quatro. Faça o acordo auditável. Não auditável por discurso. Auditável por verificação. A política internacional adora promessas porque promessas não dão trabalho. Só que promessas são poesia. Verificação é prosa. E é a prosa que evita guerra. Quem não aceita verificação está pedindo crédito. E crédito entre Estados é caro. Então a solução é simples e quase ofensiva de tão simples. Prazos curtos. Marcos claros. Medidas reversíveis. Penalidades automáticas. Incentivos também automáticos. O ideal é que o acordo funcione mesmo com líderes que se detestam. Principalmente com líderes que se detestam.
Cinco. Construa “freios” internacionais como se constrói freios domésticos. Um império de boa intenção é só um império com boa propaganda. A história inteira grita isso. Então o que presta é limitar o poder com formas. Fóruns que não são teatro. Arbitragem com consequências. Sanções com critérios. Exceções com data de validade. E, acima de tudo, separação entre quem acusa e quem executa. Quando o acusador é o executor, o mundo vira tribunal de rua. Pode até acertar uma vez. Depois vira hábito.
Seis. Controle a moeda mais subestimada da política global. O tempo. A maioria dos conflitos não é insolúvel. É mal temporizado. Um lado precisa de vitória em trinta dias. O outro consegue esperar três anos. Quem entende isso para de discutir “ideias” e começa a discutir calendários. Você resolve muita coisa criando pausas estruturadas. Pausas com monitoramento. Pausas com troca de prisioneiros. Pausas com corredor humanitário. Pausas com comércio limitado. Não porque isso é bonito. Porque isso muda incentivos. A paz não começa no amor. Começa quando continuar brigando fica chato e caro.
Sete. Pare de tentar converter adversários. Converta interesses. Todo mundo acha que o grande truque é fazer o outro “entender”. Não. O grande truque é fazer o outro “precisar”. Necessidade é o motor. E necessidade se cria com arquitetura de benefícios. Energia. Alimentos. Rotas. Tecnologia. Financiamento. Cada um desses itens é uma corrente. Correntes podem aprisionar. Também podem amarrar cooperação. O estadista que presta não idolatra interdependência. Ele a desenha para que a ruptura doa para ambos. Quando romper dói, o telefone toca antes do míssil.
E agora vem a parte que incomoda os românticos e também os cínicos. A política internacional não vai ficar “boa”. Ela vai ficar administrável. Quem espera pureza fica furioso. Quem aceita cinismo fica vendido. O caminho adulto é outro. É aceitar que sempre haverá interesse. E exigir que o interesse passe por formas. Formas são o que impedem que a força vire capricho.
É aqui que ironicamente ou não, deve ser dita, porque a ironia é também uma arma do lúcido. Ela não é deboche. Ela é precisão com sorriso curto. Ela lembra ao poderoso que o mundo está vendo. E lembra ao ingênuo que o mundo não é um seminário. O diplomata que resolve coisas sabe rir na hora certa. Ele ri quando alguém chama chantagem de “preocupação”. Ele ri quando chamam ocupação de “estabilidade”. Ele ri quando chamam censura de “harmonia”. E depois ele não briga com a palavra. Ele amarra a palavra em cláusulas. É assim que se governa a linguagem. Você não discute com o marketing. Você cobra garantia.
Quer um critério que serve por vinte anos. Sempre que um governo pedir “exceção”, peça também “limite”. Qual é o prazo. Qual é o fiscal. Qual é o gatilho de reversão. Qual é o custo se falhar. Exceção sem limite é licença. E licença é o combustível favorito da história.
Outro critério. Sempre que alguém invocar o “povo”, pergunte qual povo e por qual mecanismo ele decide. Não é sarcasmo. É higiene. “Vontade popular” sem forma vira ventriloquia. E ventriloquia costuma ter armas.
Mais um. Sempre que um líder anunciar “acordo histórico”, procure a palavra pequena que faz o acordo existir. A palavra é “execução”. Quem executa. Como executa. Com que dinheiro. Com que verificação. Com que punição. Sem isso, o “histórico” é só literatura de gabinete.
A solução mais profunda é quase desanimadora de tão pouco glamourosa. Institucionalizar a desconfiança. Não como ódio. Como método. A confiança é um sentimento. A previsibilidade é uma estrutura. Estados não precisam se amar. Precisam ter medo do custo de trair. Precisam ter ganho claro em cumprir. Precisam ter espaço para recuar sem cair. E precisam de canais que sobrevivam ao ego dos líderes. Um mundo que depende de temperamento está sempre a um mau dia de distância do desastre.
Se você faz isso, você muda o jogo. Você para de reagir a crises como se fossem surpresas. Você passa a tratá-las como testes do sistema. E aí a política internacional deixa de ser uma sequência de indignações e vira aquilo que deveria ter sido desde o começo. Um conjunto de técnicas para impedir que o pior lado da natureza humana vire política pública global.
O resto é cerimônia. Necessária, sim. Porque gente gosta de símbolo. Mas quem resolve não confunde símbolo com freio. Ele assina o símbolo. Depois aperta o parafuso. E quando alguém disser que isso é frio, você pode responder com a frieza correta. Frio é deixar o mundo depender de discursos. Isso, sim, é uma irresponsabilidade com gravata.
