Eu havia pego hora extra ambulatorial pro estágio acompanhando médicos e preceptores, no momento estava ali na ilha, parte central de uma ala do hospital, onde o ar tem um frio de ar-condicionado cansado e o cheiro de álcool se mistura ao café que alguém trouxe num copo com tampa mal rosqueada. Do lado de fora, a avenida arremessa ruído para dentro como se quisesse participar da cena. Aqui dentro, tudo é mais baixo: o ranger dos tênis no piso, o pigarro contido, a televisão sem som no alto, e aquele tipo de silêncio que não é paz, é gente tentando não derramar. Aguardando atendimento do médico, uma mulher com lenço na cabeça segura o celular com as duas mãos, não porque precisa, mas porque as mãos tremem só o suficiente para denunciar que o corpo ainda está negociando com alguma coisa invisível. O polegar paira sobre uma conversa antiga; ela abre, lê duas linhas, fecha, abre de novo. O gesto repete um circuito: impulso, contenção, impulso, contenção. A superação começa aí, nesse milímetro em que o movimento incipiente é interrompido antes de virar ato, como se ela estivesse treinando um músculo que ninguém aplaude, mas do qual depende o resto da vida.
Ao lado dela, um homem de moletom marca o espaço como quem marca território sem querer briga: joelhos abertos, mochila no colo, olhos que não encaram diretamente, mas medem as distâncias, os riscos, as saídas. Eu reconheço essa arquitetura defensiva porque ela é quase padronizada em quem viveu tempo demais sob ameaça emocional: uma escrupulosidade de corpo, uma cautela que vira meticulosidade, como se o mundo inteiro pudesse ter cabelo na sopa. Não é timidez romântica; é um sistema de segurança improvisado que se aperfeiçoa com o tempo, e que muitas vezes vira o próprio cárcere. Ele olha para o painel de senhas como quem olha para um veredito e, quando alguém ri alto do outro lado, seu ombro sobe um pouco, sozinho, e desce em seguida, como quem devolve o susto à gaveta. O corpo é um texto e, aqui, todo mundo está escrevendo em voz baixa.
Superação não tem aquele formato limpo de “virei a página”. Ela parece mais um processo de extinção mal-humorado: você decide não responder, não voltar, não pedir desculpas pelo erro do outro, e então o antigo laço, como um organismo acostumado à recompensa, reage com força. A mulher do lenço abre a conversa de novo e eu imagino o que acontece quando se interrompe um padrão que foi alimentado por migalhas: no início, o comportamento aumenta, intensifica, faz barulho, ameaça desmoronar. Não porque ela esteja pior, mas porque o vínculo tenta sobreviver. Existe uma explosão inicial quando algo para de ser reforçado; e é aí que quase todo mundo confunde abstinência com destino, e volta correndo para o que destrói só para silenciar a urgência por alguns minutos. O lado tóxico do relacionamento, muitas vezes, não é uma monstruosidade sempre explícita; é a matemática do reforço intermitente: carinho raro, desculpa teatral, promessa boa demais para ser verdade, seguida de ausência e culpa, até que o cérebro aprenda a esperar e chame de amor aquilo que é apenas condicionamento.
Na cadeira de trás, uma adolescente com máscara cirúrgica puxa o zíper da mochila e fecha de novo, como se o zíper fosse um coração que ela precisa manter funcionando. A mãe fala de exame e remédio num tom burocrático, mas os olhos, quando pousam na filha, ficam úmidos por um segundo e secam rápido, como se ali também houvesse um treino secreto. Existe uma versão de superação que não é “vencer a doença”, é atravessar o dia sem se perder dentro dela, obedecer à rotina quando o corpo grita o contrário, comparecer ao próprio tratamento mesmo com o mundo desmoronando por dentro. Em saúde mental e física, a travessia real quase sempre inclui barreiras, cansaço acumulado, complicações que se somam e tornam a vida mais curta quando não há cuidado adequado; e, ainda assim, as pessoas sentam, esperam, assinam, voltam. A coragem aqui tem formato de senha impressa em papel fino.
O homem do moletom recebe uma ligação. Ele atende sem sorrir. Enquanto ouve, a cabeça inclina um pouco, um gesto que poderia ser cordial, mas o olhar não acompanha; o olhar fica duro, deslocado, procurando a parede. Há algo de simulação social nisso, e eu penso no quanto aprendemos, cedo, a fabricar sinais amistosos para evitar conflito, e no quanto o esforço consciente de parecer calmo pode denunciar a verdade interna. Ele diz “tá tudo bem” três vezes, cada uma com menos ar. Na quarta, ele não diz. Só respira. A respiração muda a sala. O silêncio que ele faz é uma recusa. E é nesse ponto que a superação começa a encadear suas ligações: primeiro, perceber o próprio corpo antes de obedecer ao impulso; depois, tolerar a ansiedade que vem quando você corta o fio que te puxava; depois, escolher uma resposta mínima e verdadeira, mesmo que feia; e então sustentar essa escolha quando o velho sistema tenta te punir com culpa, com saudade, com lembrança editada.
A mulher do lenço, finalmente, não escreve nada. Ela fecha a conversa e abre a câmera, como se precisasse provar para si mesma que ainda existe mundo fora daquele chat. A mão treme menos quando ela aponta para os próprios joelhos. Ela respira e, por um instante, o rosto relaxa num quase sorriso que não tem plateia. Eu vejo ali uma das habilidades mais fundamentais do viver: adiar a recompensa imediata de “alívio agora” para construir uma liberdade que só aparece depois, e que no começo parece só vazio. A capacidade de resistir ao impulso é discreta e, por isso, costuma ser subestimada; mas ela é a raiz prática do autocontrole, aquele tipo de força que não tem glamour e, mesmo assim, decide destinos. Não é que a dor desapareça; é que alguém aprende a não ser arrastado por ela.
E, quando a senha dela é chamada, ela se levanta com uma lentidão cuidadosa, como quem carrega um corpo em conserto e uma história em reforma. Passa por mim e deixa no ar uma coisa difícil de nomear: a sensação de que o pior ainda tenta acontecer, mas não consegue mais comandar. Superação, nesse corredor de hospital, nesse banco de plástico, não é um discurso bonito; é uma sequência de microdecisões em que o sujeito escolhe, repetidas vezes, não se entregar à versão mais automática de si mesmo. Há quem pense que isso é pouca coisa. Aqui, de perto, dá para ver que é tudo.