A fila do café avança em pequenos solavancos, como se cada corpo precisasse reaprender a se deslocar no intervalo de um passo. O ar é morno demais para dezembro, saturado de açúcar queimado e desinfetante, e o ruído do moedor aparece como uma lâmina que separa um pensamento do próximo. Há um tipo de vigília aqui que não se anuncia: ela não é brilho no olhar, é a tentativa contínua de manter o olhar. Uma mulher apoia a ponta dos dedos no balcão como quem mede a própria presença; o peso passa do calcanhar para a ponta do pé e volta, sem ritmo estável. O estado de alerta, quando visto como um contínuo entre a vigilância alta e o sono, não se revela por heroicidade, mas por pequenas negociações internas: o quanto e quão bem se dormiu, e em que momento do dia isso aconteceu, entram no corpo e viram postura, tempo de reação, demora para aceitar um estímulo simples como “próximo”.
Na mesa mais próxima da porta, um rapaz boceja sem cobrir a boca e, por um segundo, o bocejo funciona como uma abertura involuntária do rosto, uma janela que expõe a falha do controle. A mulher ao lado dele não reage com ofensa nem com riso; apenas recua o torso alguns centímetros, como se o bocejo tivesse alterado a temperatura social do ar. É fácil tomar o bocejo como tédio dirigido ao outro, mas o sinal é mais bruto do que uma opinião: sonolência é um aviso cerebral de necessidade de sono, e tende a aparecer com mais nitidez quando a tarefa é monótona e a estimulação do ambiente é baixa, sobretudo naquele declínio previsível do meio da tarde, quando o relógio interno cobra seu pedágio discreto.
A anatomia invisível da vigília se mostra também no modo como a atenção escolhe, sem pedir licença, o que deixa entrar. Um homem de jaqueta escura fixa o painel de senhas como se quisesse atravessar os números; ainda assim, quando o copo de alguém cai ao fundo, a cabeça dele gira antes do som terminar. Não é decisão, é circuito. A manutenção do nível básico de consciência que sustenta a vigilância depende de estruturas que trabalham como um suporte inespecífico, e o estado de alerta eficiente é alimentado por um centro subcortical que, ao modular noradrenalina, reduz o ruído espontâneo e torna o cérebro mais responsivo ao estímulo que importa. Entre tronco cerebral, tálamo e córtex, há comportas: filtros que deixam passar “algumas informações” e interrompem o resto. Aqui, dá para ver o filtro falhar quando alguém responde ao próprio nome com atraso, como se a palavra precisasse ser repetida dentro da cabeça antes de se tornar audível.
Quando uma emoção agarra a cena, a vigília muda de textura. Um cliente reclama alto do troco e, no instante em que a voz sobe, o ambiente se reorganiza: olhos que estavam dispersos se alinham, ombros se contraem, mãos param no ar. O rosto do atendente endurece por meio segundo, depois tenta retomar a neutralidade; mas o corpo já recebeu a ordem. A amígdala, com suas projeções para hipotálamo e tronco, tem um jeito de acender o organismo antes que a narrativa consciente chegue para justificar: acelera ritmo, aumenta pressão, aperta a garganta, interrompe movimentos, prepara a musculatura, deixa o cérebro “tinindo” com noradrenalina, e qualquer barulho vira gatilho de sobressalto. O que se chama autocontrole, aqui, é quase sempre pós-produção: a tentativa tardia de o pensamento harmonizar o que a urgência disparou.
A vigília também se denuncia no espaço entre as pessoas, nessa proxêmica que parece casual, mas é regulada como uma pele externa. Há quem suporte o outro muito perto sem recuar, como se manter o chão fosse uma forma de não ofender; há quem, ao contrário, proteja um círculo íntimo com recuos mínimos, quase educados, que ainda assim desenham fronteira. Os mais expansivos parecem buscar a comunicação rica em modalidades: aproximam-se, sustentam o olhar por mais tempo, espalham gestos que completam a frase; os mais reservados economizam movimento e retiram o corpo como quem baixa o volume do mundo. O contato ocular, porém, tem sua medida exata: quando ultrapassa um segundo com um estranho, o olhar deixa de ser ponte e vira lâmina, percebido como agressão predatória; e é curioso ver como, diante desse excesso, a maioria responde desviando os olhos não por timidez, mas por preservação do próprio território.
Perto da saída, um segurança observa a fila com a calma treinada de quem tem permissão para olhar onde os outros evitam olhar. Ele escaneia rostos e bolsas sem pedir desculpa, e essa liberdade altera tudo: algumas pessoas ajeitam a mochila, outras reduzem o gesto, outras fingem não perceber, mas ajustam o corpo como quem retira do próprio movimento qualquer elemento que pareça suspeito. A vigília, então, revela seu último segredo: não é só um estado interno, é um contrato ambiental. O tipo de lugar, o barulho, a luz, a densidade de gente, tudo isso interfere no humor, na escolha de palavras, na expressão corporal, e produz uma vigília coletiva que parece normal justamente porque é compartilhada. Quando a fila enfim anda e eu avanço com ela, sinto que a atenção não é um foco; é um esforço de manutenção, um sistema que sustenta o “acordado” como se sustentasse um copo cheio até a borda, e qualquer pequeno tremor — uma noite curta, uma hora errada do dia, um grito, um olhar longo demais — faz o nível oscilar e mostra, por um segundo, a anatomia que costuma permanecer invisível.
