As lâmpadas fluorescentes vibram acima do linóleo, projetando rendas instáveis de sombra sobre as mãos expostas. As veias azuladas se salientam sob a frieza artificial como segredos pressionados à superfície. O ar é metálico, saturado de desinfetante mal diluído, atravessado pelo odor residual do suor preso às fibras sintéticas das cadeiras. O relógio não marca o tempo; insiste nele. Cada tique é um sintoma, não uma medida.
Os corpos se distribuem em órbitas silenciosas, gravitando em torno da espera. Uma mulher inclina o tronco para frente, como quem tenta apoiar-se em algo que não existe. As costas permanecem retas por esforço, não por conforto. O olhar percorre o espaço sem se fixar, movimento defensivo contra o pensamento que ameaça emergir. Sob os olhos, a sombra violácea denuncia noites fraturadas. A mão esquerda desenha um semicírculo repetido sobre o joelho — não um tique, mas uma tentativa de ancoragem. O tornozelo oscila quase imperceptível, metrônomo exato da ansiedade domesticada pelo hábito. A respiração é curta, medida, como se o ar fosse um recurso instável demais para ser desperdiçado.
O ambiente absorve resíduos emocionais. Observa. Registra microconvulsões: o ajuste abrupto do colar, a mordida breve no lábio, o olhar que foge do outro com urgência de quem teme ser lido. Quando o telefone da recepção toca, há uma dilatação mínima das pupilas, uma descarga elétrica que atravessa a sala, reativando memórias de tardes em que a expectativa se converteu em sentença. Os sapatos batem no chão em ritmos irregulares. Impaciência contida. Há mãos entrelaçadas até os nós embranquecerem, maxilares cerrados, músculos em alerta — uma coreografia de sobrevivência cotidiana.
A mulher ergue o rosto quando a porta se abre. O gesto morre antes de se completar. Não é seu nome. A indiferença administrativa apaga o movimento. Sob a blusa clara, o corpo aquece de súbito; pequenas manchas invisíveis se espalham. Um tremor rápido distorce o canto da boca e desaparece. Os olhos não piscam: aprendem a se calar. Dentro da bolsa, cartelas de comprimidos repousam sob o zíper fechado. O pensamento escorre para memórias neutras — pão quente nas manhãs da infância, o som das chaves girando na fechadura, o dedo afundando no feijão morno. Fragmentos pálidos, recolhidos como cascalho para erguer uma muralha improvisada contra a angústia. O celular vibra. Não é o que se espera. O polegar hesita antes de apagar a notificação, como se adiar o gesto pudesse suspender o tempo.
As máscaras começam a ceder. Uma jovem ao lado prende o ar, solta-o pela boca; o lábio superior treme. Os olhos fixam um ponto inexistente. As unhas pressionam a coxa, deixando sulcos que desaparecem rápido demais. Um homem de barba rala ergue as sobrancelhas por um segundo — espanto dissolvido em neutralidade. Seu joelho bate no vazio, dança privada de estresse. Entre eles, o ar se adensa, carregado de ruídos internos: pensamentos acelerados, memórias intrusas, cálculos de perigo, previsões catastróficas. O espaço amplifica tudo. Trocas furtivas de olhar. Sorrisos que não chegam a nascer.
Do corredor externo, a luz do sol atravessa as venezianas em lâminas oblíquas, desenhando no vidro padrões líquidos que imitam artérias sob a pele. O calor fica do lado de fora. O ar-condicionado pulsa nas paredes como um coração sem afeto, ritmando o tempo com precisão clínica. As vozes nos corredores chegam abafadas, mar de fundo que inviabiliza qualquer diálogo real. Quando alguém fala, escolhe palavras seguras — vai passar, é só rotina, não é nada. Os olhos desmentem. Mergulham em profundidades onde a linguagem não alcança. O medo de abandono é denso, mineral, alojado nos ombros que não ousam relaxar.
No reflexo do vidro, um jovem observa o próprio rosto sem reconhecê-lo. Meio sorriso congelado, meio olhar ausente. A mão desenha arabescos invisíveis no jeans; a têmpora pulsa no ritmo dos pensamentos nunca ditos. Estrangeiro dentro da própria pele. Dissociado entre o que exibe e o que sente. O vazio existencial cresce nos silêncios alongados, alimentando a compulsão por distração: conferir o celular, ajustar a camisa, contar os minutos, folhear papéis em branco — qualquer coisa que impeça o colapso quando o tédio encosta na memória.
Os passos no corredor riscam o chão, trilha sonora ácida de tragédias privadas. Ombros caídos, respirações truncadas, pescoços rígidos como colunas prestes a ceder. Não há ternura, apenas funcionamento. O toque do telefone é o único pulso vivo, interrompendo sem aliviar. Sob as pálpebras, um estado permanente de hipervigilância protege o que resta de vulnerabilidade. Abdômens contraídos, como se um golpe invisível fosse iminente. O tempo se espessa. Segundos se multiplicam. Horas perdem nome.
A luz cansada revela manchas de mofo no teto. Uma mulher mais velha ajeita a gola do casaco. Os movimentos são mínimos, econômicos, fruto de quem aprendeu a reduzir a própria presença para não atrair destinos indesejados. Os dedos denunciam artrose; o sorriso oferecido à atendente é educado, exato, suficiente para mascarar o cansaço e a ameaça constante de ser descartada. A voz, quando surge, é um fio tenso, comum aos que pedem desculpas por existir. A mão permanece firme sobre a bolsa — âncora de um corpo que insiste em ficar.
A manhã avança e as fraturas se ampliam. Gestos perdem sincronia. O ambiente devolve imagens distorcidas. No vidro, um rosto se funde ao vulto desfocado de uma árvore — alegoria involuntária de pertença e solidão. O desinfetante já não encobre o suor oxidado, a poeira, o bolor. A exaustão se infiltra nos poros, anunciando um dia que jamais será plenamente digerido.
Quando finalmente o nome ecoa da recepção, o corpo convocado desperta do torpor. Endireita os ombros. Veste uma dignidade improvisada. O sorriso surge como máscara funcional. Os passos são contidos, calibrados para esconder tanto o alívio quanto o medo. A cadeira fica para trás, ainda morna, guardando a forma de quem esteve ali — testemunha muda de mais uma espera que não termina quando acaba.