O Dia Nublado no Campus


    É um dia sem aula para nós, quase um acontecimento raro, um intervalo entre as exigências e a rotina clínica. O campus respira amplo entre prédios claros e alamedas longas, o chão ainda úmido da chuva que passou sem trovões. O céu veste um cinza opaco, denso, quase horizontal, como se tivesse engolido a altura. Em volta, a cidade interiorana parece suspensa num ritmo próprio, feito de lentidão e respiração. Há grupos dispersos no gramado: alguns deitam-se sobre a relva fria, mochilas abertas ao lado, corpos que procuram descanso; outros caminham entre os postes apagados, como se o tempo extra concedido pela falta de aula fosse um empréstimo que ninguém tem pressa em devolver.

    A minha observância é antiga, uma hipervigilância que não se cansa. Olho tudo e todos — o corpo, o gesto, o micro-ritmo, a intenção disfarçada. Um rapaz encosta-se ao tronco grosso de uma árvore, guarda-chuva fechado ao lado, o braço caído sobre o joelho, o olhar preso ao céu. Postura de quem não teme a chuva, mas a aceita como parte do mundo; microtensão no ombro direito, sinal de quem carrega planos que não se cumprem. Em outra direção, uma menina gira o colarinho da jaqueta entre os dedos rápidos, lábios semiabertos, olhar fixo no horizonte invisível. Ansiedade. O corpo denuncia aquilo que a mente tenta conter. A pressa de um pensamento que não sabe aonde ir.

    Mais ao centro do campus, uma senhora alimenta pombos com serenidade quase ritual. Cada grão que lança ao chão é medido por um gesto paciente, repetido como prece. As aves circulam ao redor dela em ondas pequenas, obedientes ao compasso do seu pulso. Não há solidão ali, há harmonia: um entendimento silencioso entre a respiração e o mundo. Penso que ela representa a própria essência da humanidade — o dom de existir sem pressa, de sustentar o instante com dignidade.

    Sigo até o corredor principal, onde o som do mundo se transforma. As vozes baixam de tom, as palavras parecem sussurradas ao concreto. O prédio respira o mesmo ar das enfermarias: frio, limpo, levemente estéril. Caminho entre colegas que se espalham pelas paredes com copos de café, olhos vagos, risos contidos. O corpo deles fala antes da boca: ombros tensos, pernas cruzadas, cansaços precoces. A medicina nos ensina a diagnosticar doenças, mas poucos aprendem a diagnosticar a alma.

    Um rapaz fala com empolgação sobre um caso clínico que nunca viu, gestos largos, voz confiante demais. A colega o escuta, mas o tronco inclina-se discretamente para trás: defesa corporal, distância disfarçada. Há uma ironia leve em sua sobrancelha, o sinal inequívoco da mente que observa sem acreditar. Ninguém percebe. Penso: quase ninguém ouve, apenas aguarda a própria vez de falar.

Mais à frente, um grupo sentado no chão ri sem alegria. É a risada dos que querem parecer tranquilos. O corpo entrega: costas curvadas, olhos cansados, as mãos inquietas sobre o colo. Jovens demais para tanto peso. São filhos do mérito, e o mérito os esmaga.

Encosto-me a uma pilastra, o vento entra pelas janelas altas trazendo cheiro de terra molhada e rumor de trovão. Observo uma aluna que caminha sozinha, fones nos ouvidos, olhar fixo na tela. Ela passa por entre os grupos sem ver ninguém, envolta em uma bolha luminosa de isolamento. O corpo dela é o retrato exato da solidão contemporânea: estar rodeada e, ainda assim, ausente.

    Saio para o pátio e volto a respirar o ar aberto. As mesas do café estão cobertas de xícaras esquecidas, espuma de cappuccino que perdeu a forma. Sento-me. O som das conversas chega até mim como ecos sem dono. Um casal discute em voz baixa — as palavras são leves, mas os gestos pesam. A perna dele balança, a mão dela aperta o braço da cadeira. O olhar dele procura uma fuga; o dela, uma resposta. Nenhum dos dois fala o idioma do outro, mas ambos acreditam que estão se explicando.

    Mais adiante, um estudante lê sob uma árvore. O vento folheia seu livro por conta própria, e ele o deixa fazer. Há algo quase sagrado nesse abandono. Ele não lê mais, está sendo lido pelo mundo.

    Levanto-me. Caminho devagar pelas calçadas molhadas que refletem o prédio à frente como um espelho invertido. Pessoal de Medicina sem aula com certeza nos corredores da direção não é a paz que ali paira. O campus inteiro parece uma mente aberta — os corpos, os gestos, as pausas, todos funcionando como sinapses visíveis. Penso em como cada movimento é uma confissão involuntária. A maneira como alguém ajusta a alça da mochila revela mais sobre seu caráter do que um discurso.

    A minha turma cruza o caminho rindo, alguns deitam-se de novo na grama. O som das conversas sobe e desce, o riso corta o ar pesado. Observo tudo sem pressa, como quem escuta uma língua antiga que aprendeu a compreender, mas não mais a falar.

    Não há conclusão. Há apenas uma suspensão: o céu fechado, o gramado respirando, a cidade interiorana embalada por uma quietude que não cessa. E nós, observadores e observados, seguimos, entre cafés frios e corredores úmidos, tentando entender o humano pelo que mostra, pelo que guarda, pelo que, mesmo sem palavras, insiste em escapar.