Medo: Domine ou deixe ser dominado

Medo: Domine ou deixe ser dominado

No início do semestre, a universidade renasce com a mesma pressa com que o corpo volta a sentir fome depois de uma febre. O CRA vira um coração administrativo: gente entrando e saindo, papéis circulando como hemácias apressadas. Eu estava na fila, observando por hábito com essa hiper-vigilância que não é virtude, é cicatriz treinada. Foi assim que eu vi a menina. Não era caloura perdida, pelo que deu a entender ela já tinha sido aprovada, ganhou uma bolsa de iniciação científica fora, um desses “sins” raros que mudam a vida antes da vida mudar. Por que pensa, parece algo bobo pra alguns, mas estudar e se capacitar sempre será algo insubstituível. Caso um dia venha a “banalizar” os estudos (diploma, experiência, especialização, mestrado, doutorado etc) quando o objetivo for tornar inacessível ou indiferente o conhecimento, em tese, só se o objetivo for que a população no geral não adquira conhecimento. Enfim, ainda assim, ela estava sentada como se aguardasse uma sentença. A pasta fechada contra o peito, o olhar oscilando entre o guichê e o vazio, e uma tensão no rosto. Talvez um sonho dela estava pronto, mas o corpo se comportava como se alguém tivesse acendido um alarme de incêndio.

Quando chamaram a senha dela, ela levantou sem impulso, como quem se puxa pelo próprio colarinho. A atendente, com aquela neutralidade de quem vê centenas de futuros por dia, disse que para ela encaminha-la pro setor de relações internacionais precisava conferir os documentos, mas que o passaporte era obrigatório. E aparentemente a menina sabia documentações, parecia tá se organizando há um tempo. Ela abriu a pasta com cuidado excessivo, como se cada folha fosse frágil demais e então o olhar dela mudou de cor. Não havia passaporte ali. Em segundos, o rosto empalideceu, os ombros subiram, a respiração ficou curta, e o mundo pareceu diminuir ao tamanho daquele balcão. O medo, quando chega, não argumenta; ele prova. Ele prova com o corpo. Ele transforma um detalhe burocrático numa queda metafísica, porque o cérebro não sabe separar “perdi um documento” de “perdi uma vida” quando o que está em jogo é identidade, pertencimento, horizonte. Aquilo durou pouco, mas foi o suficiente para eu sentir, por um instante, o que é ver um desejo desabar sem som, como um prédio que afunda para dentro de si.

Nem eu havia percebido, mas o passaporte dela estava na cadeira onde ela tinha sentado, como se a própria realidade tivesse pregado uma peça mínima para testar a consistência de um destino. Eu peguei e fui levar até ela. Era próximo, mas eu realmente não tinha percebido. Quando coloquei o passaporte na frente dela, eu vi o retorno da cor, mas não vi euforia; vi algo mais real: um choque de vergonha com alívio, como se ela tivesse sido exposta e salva ao mesmo tempo. A atendente retomou o procedimento, agora com a mesma voz de antes, tive uma introspecção fodida ali e isso também foi uma lição: o mundo quase nunca dramatiza as nossas catástrofes internas. A burocracia segue, indiferente, enquanto dentro da gente acontece um apocalipse íntimo. Eu aprendi, observando gente em crise e gente em recomeço, que o medo gosta de briga verbal, porque briga cansa e cansa faz voltar para casa. O que ajuda é reduzir a cena ao que é executável.

Ela soltou o ar como quem devolve uma âncora ao mar. Havia nela um traço de autocobrança muito alto, aquele tipo de mente que transforma qualquer falha em prova de incapacidade, e isso é um combustível comum do medo: a pessoa não teme apenas errar, ela teme o significado do erro. O medo adora significados, porque significados não se comprovam, só se sentem. E é por isso que ele é tão convincente. Ela assinou, pegou uma guia para o setor internacionalista e saiu como quem acabou de escapar de um acidente que ninguém viu.

A cena era pequena mas pelo prisma que enxerguei parecia que ali havia por segundos encerrado um ciclo que nem havia começado. Ficou claro pra mim, o mecanismo que decide tantas histórias: o medo não destrói só pelo “não vá”; ele destrói pelo convite ao alívio imediato. Ele oferece fuga como anestesia. Se ela tivesse ido embora naquela hora, a ansiedade cairia na mesma hora, e o cérebro aprenderia mais uma vez que evitar é “funcionar”. E esse aprendizado, repetido, vira destino. Coragem, então, não é uma explosão de heroísmo; é uma ciência de microescolhas. É permanecer alguns segundos a mais no lugar onde a mente quer te arrancar. É sustentar o corpo aberto quando ele quer virar barreira. É separar o fato do significado antes que o significado te engula. É lembrar, mesmo tremendo, que um sonho nobre merece método, não apenas emoção.

Quando finalmente chamaram a minha senha e já estava em atendimento, ouvi passos leves atrás. Ela tinha voltado do RI e me agradeceu com uma voz que carregava algo novo, e disse uma frase que ficou em mim: “Eu achei por segundos que não teria de esperar mais um ano”, ela sorriu sem pressa, e foi embora. Eu fiquei com a sensação incômoda e preciosa de que vencer o medo, para alcançar um objetivo, não é sobre “virar outra pessoa”; é sobre tornar-se confiável para si mesmo. O resto vem depois, como geografia. Primeiro vem essa coisa invisível e decisiva: aprender a atravessar o próprio alarme sem obedecer a ele. E às vezes, como naquela cadeira de plástico, a vida te mostra isso com um objeto e alguns segundos que pensa que tudo está desabando.