Liturgia do Cotidiano

Liturgia do Cotidiano

Existe uma ilusão antiga que insiste em voltar com roupas novas.
A ideia de que o que é mais real acontece acima da vida.
Num lugar separado.
Como se o corpo fosse um atraso.
Como se o trabalho fosse um desvio.
Como se as decisões comuns fossem um ruído que atrapalha o que é sagrado.
Isso não é espiritualidade madura.
Isso é uma divisão mal feita dentro da mente.

A consciência amadurecida percebe uma exigência maior.
Nada é neutro.
Não porque tudo seja dramático.
Mas porque tudo participa de uma trama viva.
Existe uma ordem que desce.
Existe uma resposta que sobe.
E o humano vive bem no meio dessa troca.

Quando você imagina que existe um céu distante você cria uma desculpa elegante para viver sem presença aqui embaixo.
O que chamamos de céu e terra não precisa virar crença.
Dá para entender como dois movimentos.
Um é fonte.
O outro é forma.
Um é inspiração.
O outro é recipiente.
A própria criação é descrita como um fluxo que se espalha e depois se retira.
Esse vai e vem deixa uma marca.
E a marca vira vaso.

Quando esse ritmo é ignorado a pessoa tenta viver só no alto ou só no chão.
Se ela tenta viver só no alto ela vira abstrata.
Se ela tenta viver só no chão ela vira automática.
Nos dois casos ela perde o centro.
E perde junto a coisa mais preciosa.
A capacidade de habitar o gesto enquanto o gesto acontece.

Espiritualidade não é subir.
É aprender a descer com consciência.
O mundo não é o inimigo.
O inimigo é a ausência.
O erro não é trabalhar.
O erro é trabalhar sem estar ali.
O erro não é comer.
O erro é comer como se fosse apenas consumo.

Bênção não é prêmio.
Bênção é nutrição.
É inteligência que irriga.
Ela só aparece quando existe começo interno.
E começo interno não é entusiasmo.
Começo interno é sabedoria operando como ordem.

Só que essa nutrição pede estrutura.
O fluxo sem recipiente vira excesso.
Por isso se fala de limites como parte da vida espiritual.
Limite não é moralismo.
Limite é condição de existência.
Julgamento no sentido profundo é medida.

Repara numa imagem simples.
A bênção como um copo que precisa ser segurado do jeito certo.
Se você segura sem firmeza derrama.
Se você segura com dureza quebra.
Existe um equilíbrio entre restrição e generosidade.
Primeiro você prepara o recipiente.
Depois você recebe o conteúdo.

Na vida prática isso vira uma pergunta curta.
Eu estou presente neste gesto.
Se a resposta for não você não precisa mudar o gesto.
Você só precisa entrar nele.
Ajustar o olhar.
Ajustar a respiração.
Ajustar a pressa.

Comer com presença muda o corpo.
Trabalhar com presença muda a mente.
Falar com presença muda as relações.
O outro percebe quando está falando com alguém inteiro.

Quando você divide espiritual e profano você se fragmenta.
A fragmentação cansa.
Unidade é quando o mesmo você atravessa tudo.
Com mais ou menos intensidade.
Mas com a mesma inteireza.

Não é romantizar o cotidiano.
É habitá-lo.
Não é escapar da terra.
É aprender a fazer a terra suportar céu.

A espiritualidade madura não procura um lugar melhor.
Ela melhora o lugar onde você já está.
Ela não vira discurso.
Ela vira vida.