A fila do guichê do posto começa antes da sombra e termina dentro dela, uma linha torta de gente que finge não ser linha, porque o calor empurra os corpos para perto e a pressa empurra os olhos para o chão, e eu estou ali com o papel dobrado entre os dedos já úmidos, sentindo na palma a aspereza do formulário e ouvindo o chiado do ventilador que gira sem decidir para quem trabalha. No meio, um homem sem uniforme, sem crachá, sem nada que o anuncie, se adianta meio passo e esse meio passo muda a geometria. Ele não pede licença, ele ocupa. A sola do sapato dele não procura espaço, declara espaço. O queixo sobe um pouco mais do que seria necessário para falar com alguém e, quando ele fala, não é alto, é colocado, como quem encaixa a voz no lugar onde uma placa deveria estar. “Encosta aqui. Forma uma fila só. Não é difícil.” O dedo não aponta, desenha. A mão se abre com a palma virada para baixo, gesto de cobrir, de assentar, de pôr tampa. Ele olha para um ponto acima do rosto das pessoas, como se falasse com uma coisa maior do que elas, e isso livra o olhar dele de qualquer pedido de permissão. A primeira mulher a receber a correção dá um sorriso curto que não chega a virar sorriso, um músculo que tenta economizar atrito, e move os pés dois centímetros. É pouco, mas é o suficiente para o homem ganhar um brilho mínimo nos cantos da boca, não alegria, outra coisa, uma confirmação seca que se espalha pelo peito dele como se o ar ali tivesse voltado a obedecer. Ele continua. “O senhor aí, atrás da senhora. Não passa na frente. Se ficar de lado atrapalha.” A palavra “atrapalha” cai como se fosse regra antiga, e eu noto que ele não explica nada, ele não precisa, porque a explicação estaria na necessidade dele, e ele não quer precisar, ele quer ordenar. O grupo responde com movimentos pequenos, quase invisíveis, uma coreografia de quem prefere ajustar o corpo a ajustar a cena. Um rapaz que estava com fone tira um lado do ouvido e recoloca, só para mostrar que ouviu e mesmo assim manter uma parede. Um homem mais velho segura a própria pasta com as duas mãos, como se segurasse um limite, e inclina o tronco para trás, afastando o peito da zona onde a voz do improvisado parece mais forte. Ninguém discute, mas a fila fica mais rígida, mais reta, não por disciplina, por cautela. A tensão não aparece em frases, aparece em respirações que param no meio, em gargantas que engolem seco, em olhos que se fingem ocupados com o azulejo. O líder improvisado sente isso e não recua, ele se alimenta do desconforto porque o desconforto é prova de efeito. Ele encurta distâncias sem tocar, mas às vezes roça de leve o ar do outro com a mão, como quem mede uma cerca, e cada roçada instala uma pergunta muda: ele pode? E a resposta vem quando ninguém faz nada. A cada concessão, o corpo dele fica mais solto, não relaxado, solto como uma peça que encontrou o encaixe e agora gira com menos atrito. Ele começa a dar alternativas que não são alternativas: “Ou faz aqui ou vai ter que voltar. Decide agora.” A palavra “decide” sai com um gosto de generosidade, como se ele estivesse oferecendo autonomia quando, na verdade, está oferecendo apenas uma saída estreita. Eu percebo o prazer dele no modo como ele segura a própria pausa, no silêncio que ele cria e deixa as pessoas preencherem com obediência, e percebo o incômodo coletivo na maneira como todos evitam olhar diretamente para ele e ao mesmo tempo vigiam, porque a fila virou um corpo único que respira com medo de espirrar. O mais curioso é que o poder dele não está no que ele faz, está no que ele impede que os outros façam: ele impede que a fila seja bagunça, mas também impede que alguém reclame do calor, que alguém pergunte ao funcionário lá dentro, que alguém fale alto demais e quebre o clima de cautela; ele instala uma ordem que não é serviço, é domínio, e por um instante eu sinto a fila aceitar isso como se fosse melhor do que o vazio, como se o desconforto fosse preço justo para não ter que encarar a própria desorganização. O ventilador continua girando, o ar continua quente, o guichê continua fechado por tempo demais, e o homem, sem título e sem direito, sustenta a cena com a postura de quem encontrou ali, no espaço público mais banal, um lugar onde mandar não dá trabalho porque o resto do mundo já está cansado demais para disputar.