Quase esquina

Quase esquina

Estou voltando para Alagoas e há viagens que não são deslocamentos, são diagnósticos. A viagem não encurta nada; ela apenas oferece tempo suficiente para que o pensamento faça o que sempre fez melhor quando não há como escapar: repetir perguntas até que elas deixem de ser perguntas e passem a integrar a paisagem. Vou para Alagoas com um tipo de tristeza que não faz alarde, porque a dor, quando amadurece, não grita. Ela se organiza por dentro, como quem fecha portas para que o vento não espalhe ainda mais o que já está quebrado. Como já havia dito em outros posts, meu pai está com câncer. Desde então, o tratamento nunca foi ausência, sempre foi permanência: quimioterapia, radioterapia, exames, retornos, a rotina exaustiva de quem aprende a conviver com palavras grandes que, no fundo, dizem sempre a mesma coisa pequena e brutal: continuar. Em 2009, nossa família se mudou para Alagoas. Meu pai retornou à cidade onde nasceu, a cidade que também é a minha origem, embora eu tenha saído dela assim que nasci. Cresci longe, e por isso Alagoas sempre foi, para mim, motivo de um orgulho interno que não sei descrever. Meus pais estão na casa deles, reconstruindo a vida dentro das possibilidades que a doença permitia. Agora, sou eu quem retorna, novamente. Estou indo para ficar um tempo com eles. A faculdade ficou para trás por algumas semanas, os professores compreenderam a situação. Houve humanidade ali onde poderia haver rigidez, e isso não é detalhe, é parte da história. Estou num avião e é nesse intervalo suspenso, entre um lugar e outro, que o pensamento ganha densidade suficiente para doer. Penso no meu pai, que passou a vida inteira longe da cidade natal, agora vivendo novamente nela, não por nostalgia, mas por escolha e necessidade, por pertencimento tardio, por circunstância. Pergunto-me, sem dramatizar, se há em todo retorno uma tentativa silenciosa de alinhamento entre início e fim. Não como rendição, mas como gesto de coerência íntima. Ou se, mais simplesmente, trata-se de procurar chão firme quando o corpo já não oferece garantias. A história é muito mais profunda do que a própria patologia.

Existe uma crueldade que não precisa de vilões. Ela se instala quando as pessoas desaparecem. Na época das "vacas gordas", quando a vida parecia um banquete permanente e todos se aproximavam com talheres em punho, meu pai era admirado, apoiado, cercado. E isso não era mentira; era apenas uma verdade que funcionava enquanto não exigia sacrifício. Hoje, são poucos os que aparecem. Alguns sequer pertencem à família. O que produz uma ironia silenciosa, quase constrangedora: estranhos exercendo o básico enquanto muitos dos “de sempre” ocupam a posição mais confortável possível, aquela que começa com “eu até queria, mas…”. Há uma covardia específica diante da doença alheia. Ela se mascara de ocupação, de prudência, de incapacidade emocional. Como se empatia fosse um talento raro e não um dever mínimo. Como se presença fosse luxo. Como se acompanhar alguém em tratamento fosse um ato heroico e não simplesmente humanidade em funcionamento. O que mais impressiona não é a ausência em si, mas a lógica que a sustenta: enquanto alguém pode oferecer algo, enquanto há utilidade, prestígio, força ou recurso, a plateia não apenas comparece, como se sente parte do espetáculo. Quando chegam a doença, o desgaste, os limites financeiros e a repetição cansativa dos dias, instala-se um silêncio altamente organizado, cheio de compromissos, agendas e justificativas. Um silêncio que se autoriza porque, no fundo, muita gente acredita que a dor do outro é um problema privado. A doença, no entanto, faz algo incômodo: ela torna público o que a saúde permite esconder. O caráter. E o caráter, quando exposto, raramente sai ileso. Alguns lembram, poucos, do que meu pai já fez, do que ofereceu, do que sustentou sem exigir retorno. Outros parecem acometidos por uma amnésia seletiva, dessas que a consciência administra para evitar desconforto. Observo tudo isso com uma racionalidade que não anestesia, mas impede a queda: o ser humano confunde com facilidade gratidão e conveniência. Enquanto a vida prospera, chama-se família. Quando a vida aperta, chama-se cada um tem seus problemas. É um calculo simples, funcional e devastador.

Penso que meu pai não trata apenas um corpo, mas uma história inteira. A história de quem voltou à origem não para reviver o passado, mas para sustentar o presente. Talvez haja conforto no conhecido. Talvez haja uma tentativa silenciosa de alinhar a própria trajetória. Talvez não haja nada disso, apenas a necessidade concreta de estar onde faz sentido estar. Nem toda decisão carrega metáfora; algumas carregam apenas sobrevivência. E eu, que vou, entendo com clareza quase fria que a tristeza não é só pelo câncer. É pelo que a doença revela nos outros. É pela fuga educada, pelo constrangimento diante da fragilidade, pela incapacidade de amar quando o amor exige coragem. Ainda assim, não consigo deixar de sentir uma espécie de ternura amarga pela condição humana inteira, esse organismo que se diz civilizado e treme diante de um leito, como se a finitude fosse contagiosa. Talvez seja isso: a doença do outro lembra a nossa. Há quem prefira se afastar a encarar o espelho. Há quem chame de distância o que é, na prática, medo. Medo explica, mas não absolve. E explicações não visitam, não ligam, não sentam ao lado da cama. Eu vou para estar. Porque, no fim, tudo se reduz ao essencial: presença é o único argumento que a doença respeita. O resto, admiração antiga, promessas vagas, discursos generosos, é literatura de ocasião. E eu não escrevo para decorar. Escrevo para sustentar. Para que, ao menos agora, meu pai tenha aquilo que tanta gente posterga como se fosse infinito: um lugar onde a dor não precise pedir permissão para existir.